Umbanda

 



Umbanda


📘  Umbanda: A Religião do Coração Aberto


Situação atual da Umbanda: distribuição, desafios e presença cultural

No Brasil contemporâneo, a Umbanda segue sendo uma das principais religiões de matriz africana, embora o número de adeptos declarados seja relativamente pequeno em comparação com as grandes confissões. De acordo com o Censo Demográfico de 2010 (IBGE), cerca de 432 mil pessoas se identificaram explicitamente como umbandistas – algo em torno de 0,2% da população nacional. Esse número representou uma queda de aproximadamente 20% em relação ao censo de 1991t. Entretanto, lideranças umbandistas argumentam que a estatística não reflete a realidade, pois muitos praticantes não assumem publicamente sua fé umbandista por medo de preconceito ou por simultaneamente frequentarem outras religiões. É comum, por exemplo, pessoas se dizerem “católicas” ou “espíritas” para familiares e colegas, mas visitarem terreiros de Umbanda em busca de ajuda espiritual. Assim, estima-se que o número de simpatizantes e consulentes da Umbanda seja muito maior do que os números oficiais sugerem.

Geograficamente, a Umbanda tem forte presença nos centros urbanos do Sudeste. Rio de Janeiro e São Paulo concentram grande quantidade de terreiros. No Rio, a Umbanda é parte do folclore local há décadas (expressões como “fazer uma macumba” se referem popularmente a ritos que em grande parte derivam da Umbanda). Em São Paulo, bairros tradicionais possuem terreiros reconhecidos e há federações que organizam eventos umbandistas. Nos estados do Sul (Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina), a Umbanda também fincou raízes, muitas vezes abraçada por descendentes de europeus tanto quanto por afro-descendentes – no Rio Grande do Sul, por exemplo, desenvolveu-se a chamada Umbanda de Bará (termo local para Exu) com características regionais. No Centro-Oeste e Nordeste, a Umbanda convive lado a lado com o Candomblé e outras práticas afro-indígenas: em alguns lugares, as fronteiras entre Umbanda e Candomblé ficam tênues, com terreiros sincréticos. Mesmo na Amazônia, existem terreiros que mesclam umbanda com pajelança indígena e espíritos regionais (como boto, caboclos de mata). Ou seja, a distribuição da Umbanda é nacional, embora sua visibilidade varie conforme a região e o contexto cultural.

Culturalmente, a Umbanda permanece muito presente no imaginário brasileiro. Músicas populares continuam fazendo referências a orixás e guias (em ritmos como o samba e o pagode, por exemplo, diversas letras celebram Iemanjá, Ogum, ou mencionam “guias” – colares – e “pontos” – cantos sagrados). As festas sincréticas como o Dia de Iemanjá em 2 de fevereiro, comemorado em praias com oferendas, atraem não só umbandistas mas também católicos e pessoas de outras fés, mostrando como certos elementos umbandistas viraram tradições populares. Na literatura e na televisão, volta e meia aparecem personagens umbandistas ou cenas de gira – seja nas novelas brasileiras (onde mães-de-santo já foram retratadas, às vezes de forma estereotipada, mas evidenciando que o tema faz parte do cotidiano nacional) ou em filmes/documentários sobre cultura afro-brasileira.

Apesar desse reconhecimento cultural, os desafios atuais da Umbanda são significativos. A intolerância religiosa vinda principalmente de setores neopentecostais continua a atingir terreiros em todo o país. Dados de órgãos de direitos humanos indicam crescimento nas denúncias de ataques: só no Rio de Janeiro, registrou-se um aumento de 56% nos casos de intolerância contra religiões afro-brasileiras no primeiro trimestre de 2018 em comparação ao ano anterior. Em nível nacional, o Disque 100 (canal de denúncias) contabilizou apenas 15 casos em 2011, saltando para 759 casos em 2017 relacionados a agressões e violações contra terreiros de Umbanda, Candomblé e afins. Esses ataques vão desde depredações de templos (invasores que quebram imagens, picham frases como "Fora macumbeiros!", queimam altares) até agressões verbais e físicas a praticantes, incluindo crianças impedidas de usar trajes brancos ou contas na escola por bullying religioso. As motivações por trás dessa intolerância são complexas, mas estudiosos apontam a existência de uma “guerra espiritual” pregada por certas igrejas que demonizam as entidades umbandistas, somada a um preconceito racial histórico (já que as religiões de matriz africana são associadas à população negra). O sociólogo Reginaldo Prandi observa que há "muita religião para pouco devoto" no Brasil – ou seja, uma disputa acirrada por fiéis – levando alguns grupos neopentecostais a estabelecer “metas de conversão” de umbandistas entre seus pastores, acirrando os confrontos.

Em resposta, umbandistas e candomblecistas têm se mobilizado politicamente e juridicamente. A legislação brasileira hoje tipifica a intolerância religiosa como crime e vários Estados possuem delegacias especializadas. Em nível de valorização cultural, a Umbanda conquistou reconhecimento: em 2012, o governo federal instituiu oficialmente o 15 de novembro como Dia Nacional da Umbanda (Lei nº 12.644), dando visibilidade à data de fundação histórica. Em 2016, a Umbanda foi reconhecida como Patrimônio Imaterial da cidade do Rio de Janeiro, após estudo do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Também há projetos de inventariar terreiros antigos como patrimônio cultural a ser preservado. Essas medidas afirmativas ajudam a legitimar a Umbanda como parte integrante e respeitável da cultura brasileira.

Outro desafio interno é a transmissão para as novas gerações. Muitos terreiros têm investido em ações pedagógicas, abrindo suas portas para visitantes, promovendo palestras e participando de eventos inter-religiosos para explicar seus fundamentos e diminuir o estranhamento. A fundação da Faculdade de Teologia Umbandista, já citada, e cursos online sobre Umbanda indicam um esforço de sistematização e registro da doutrina, que tradicionalmente era transmitida de forma mais oral e iniciática. Jovens umbandistas hoje têm acesso a livros, teses acadêmicas e conteúdos digitais sobre sua religião, o que fortalece o sentimento de identidade religiosa e comunidade.

Em síntese, a situação atual da Umbanda é de resistência e continuidade. Mesmo não sendo uma religião de massas, a Umbanda mantém uma presença constante e discreta: nos centros urbanos, é comum haver terreiros ativos em diversos bairros – embora alguns funcionem quase escondidos, outros já estão totalmente legalizados e identificados. A Umbanda enfrenta preconceitos antigos e novos, mas também desfruta do respeito de muitos que reconhecem seu valor social (como terapia comunitária e espaço de acolhimento espiritual) e seu valor cultural. Afinal, a Umbanda influenciou profundamente a música, a arte e a cultura brasileira ao longo do último século. Seja nas oferendas à Iemanjá lançadas ao mar no Ano Novo, nas imagens de São Jorge/Ogum veneradas no dia 23 de abril, ou nos atabaques e cânticos que ecoam nas noites de gira, a Umbanda continua “transbordando brasilidade” – uma religião nascida no Brasil e para o Brasilr, fundada na mensagem universal de que todos, espíritos e encarnados, independentemente de raça ou condição, são irmãos perante Deus