Historia da Umbanda

 



Umbanda



Umbanda: A Religião do Povo, 

do Axé e da Caridade

Umbanda: história, fundamentos e atualidade

Umbanda é uma religião brasileira de matriz afro-brasileira, surgida no início do século XX. Ela se caracteriza por sintetizar elementos das tradições africanas, indígenas, do espiritismo kardecista e do catolicismo, formando um sistema religioso original. Por sua mescla de influências, a Umbanda é frequentemente considerada uma religião genuinamente brasileira, fundamentada na caridade, na mediunidade (comunicação com espíritos) e na visão espiritual de que todas as pessoas, independentemente de cor ou classe social, merecem acesso à ajuda religiosa. A seguir, exploramos de forma didática a origem, as crenças, os ritos, a evolução histórica, o sincretismo e a situação atual da Umbanda, incluindo referências a figuras e fatos marcantes em sua trajetória.

Origem e fundação da Umbanda

A Umbanda foi fundada no Brasil em 1908, no estado do Rio de Janeiro. O contexto de seu surgimento envolve a confluência de práticas religiosas existentes no final do século XIX: cultos afro-brasileiros populares (chamados genericamente de macumba), ritos de influência Bantu como a Cabula, tradições indígenas (pajelança) e o espiritismo kardecista europeu. Nessas práticas sincréticas anteriores, já ocorriam manifestações de espíritos de negros escravizados e de indígenas, embora faltasse uma estrutura religiosa unificada. Foi a partir desse caldo cultural heterogêneo que se formou a base para a nova religião organizada que viria a se chamar Umbanda.

O marco fundador da Umbanda é atribuído ao jovem Zélio Fernandino de Moraes. Em 15 de novembro de 1908, aos 17 anos, Zélio – que vinha sofrendo episódios mediúnicos – participou de uma sessão na Federação Espírita de Niterói (RJ). Nessa ocasião, durante a sessão kardecista, espíritos de caboclos (índios) e pretos-velhos (africanos escravizados) manifestaram-se através de Zélio, mas foram chamados de “atrasados” e repreendidos pelo dirigente espírita presente. Subitamente, Zélio incorporou uma nova entidade espiritual que questionou o preconceito contra aqueles espíritos e anunciou que, se ali não houvesse espaço para eles transmitirem sua mensagem, no dia seguinte se iniciaria um novo culto na casa de Zélio. Ao ser indagado sobre sua identidade, o espírito respondeu: “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, explicando: “para mim não haverá caminhos fechados”. Esse momento é entendido como o anúncio da Umbanda enquanto religião, que se propunha a acolher os espíritos humildes de negros e indígenas desprezados pelo espiritismo da época.

No dia 16 de novembro de 1908, conforme prometido, Zélio reuniu familiares e simpatizantes em sua residência (no bairro de Neves, em São Gonçalo, RJ) e novamente incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Nessa sessão inaugural, o espírito comunicou que aqueles “velhos espíritos de negros escravizados e índios da nossa terra” iriam trabalhar em auxílio de seus irmãos encarnados, sem distinção de cor, raça ou posição social. Assim, foi fundado ali o primeiro terreiro de Umbanda, sob o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade – um nome que reflete a forte influência católica inicial. Zélio de Moraes passou a liderar essa casa, considerada o primeiro templo umbandista, e estabeleceu diretrizes para a nova religião: os médiuns deveriam vestir roupas brancas, usar guias (colares de contas) coloridas representando suas entidades, praticar a mediunidade de incorporação e pautar-se sempre pela caridade. Uma frase atribuída a Zélio resume o espírito inclusivo da Umbanda nascente: “Com os que sabem mais, aprenderemos. Aos que sabem menos, ensinaremos. Mas, a ninguém viraremos as costas.”

Desde o início, a Umbanda incorporou valores éticos claros. Não praticar o mal a ninguém, não interferir no livre-arbítrio alheio e não cobrar por atendimentos espirituais tornaram-se princípios básicos ensinados nos terreiros. Outra diferença marcante em relação às religiões afro-brasileiras tradicionais foi a recusa de certos rituais: Zélio proibiu o uso de atabaques (tambores africanos), o jogo de búzios para adivinhação e o sacrifício de animais nas práticas umbandistas. Essa orientação visava distinguir a Umbanda nascente dos cultos afro-brasileiros então marginalizados (como o Candomblé) e aproximá-la dos padrões do espiritismo e do catolicismo – religiões mais aceitas pela sociedade da época. De fato, diferentemente do candomblé, a Umbanda clássica não realiza sacrifícios animais em seus ritos, enfatizando oferendas simbólicas (flores, velas, frutas) e preces.

Importante notar que o contexto histórico era adverso: apesar da Constituição Republicana de 1891 garantir liberdade de culto, o Código Penal de 1890 criminalizava os “feiticeiros” e práticas de cultos africanos. Por essa razão, nas primeiras décadas os terreiros de Umbanda sofriam perseguições e batidas policiais frequentes. Ainda assim, a mensagem da nova religião espalhou-se rapidamente. Em 1918, Zélio ajudou a fundar outras sete tendas (templos) de Umbanda no Rio de Janeiro, ampliando a difusão da doutrina. A partir de então, a Umbanda iniciaria sua expansão por outras regiões do Brasil, conforme veremos adiante.

Cosmologia e entidades espirituais na Umbanda

A Umbanda possui uma cosmologia própria, embora flexível, que combina conceitos do catolicismo, do espiritismo e das religiões africanas. Em sua teologia, acredita-se em um Deus único, supremo – frequentemente chamado de Olorum (termo de origem iorubá) ou Zambi (termo de origem Bantu) – equivalente ao Deus do cristianismo. Esse Deus é a fonte maior de criação e amor, porém geralmente não é cultuado diretamente; a relação entre o divino e os homens se dá por intermédio de entidades espirituais diversas.

No topo dessa hierarquia estão os Orixás, divindades de origem africana (principalmente da cultura iorubá) que representam as forças da natureza e aspectos divinos. Os orixás na Umbanda são vistos ora como entidades específicas (semelhante ao candomblé), ora como arquétipos ou emanações de Deus associados a santos católicos, dependendo da linha doutrinária de cada terreiro. Por exemplo, muitos umbandistas identificam Oxalá – orixá maior ligado à criação e à luz – com Jesus Cristo, e Iemanjá – orixá dos mares – com representações de Nossa Senhora (especialmente Nossa Senhora dos Navegantes ou da Conceição). Já Ogum, orixá guerreiro do ferro e dos caminhos, é amplamente sincretizado com São Jorge, santo militar muito popular no Brasil. Em essência, os orixás na Umbanda ocupam um papel análogo ao de santos e arcanjos, atuando como potências divinas que emanam a energia de Deus e supervisionam diferentes linhas de trabalho espirituais.

Ao lado dos orixás, a Umbanda cultua uma grande variedade de entidades espirituais conhecidas como guias ou entidades de luz. São espíritos de seres humanos falecidos (ou arquétipos espirituais) que, por sua elevada sabedoria e evolução, trabalham como mensageiros e auxiliadores entre o mundo espiritual e os homens. Esses espíritos se organizam em “linhas de trabalho” ou falanges, geralmente sob a regência de um orixá específico ou de um guia-chefe relacionado a esse orixá. As nomenclaturas e classificações podem variar entre terreiros, mas de modo geral existem categorias clássicas de entidades na Umbanda. Entre as principais podemos destacar:

  • Caboclos – espíritos de indígenas brasileiros. Representam a sabedoria nativa, a força da natureza e a coragem. Exemplo: o Caboclo das Sete Encruzilhadas (guia de Zélio) é um caboclo.

  • Pretos-velhos – espíritos de antigos escravizados africanos. Apresentam-se como anciãos sábios e humildes, simbolizando experiência, paciência e bondade.

  • Crianças (Erês) – espíritos que se manifestam na forma de crianças. Transmitem pureza, alegria e inocência, trazendo leveza ao ambiente.

  • Exus – espíritos mensageiros e guardiões ligados à ordem e à justiça nas encruzilhadas da vida. Na Umbanda, os Exus (e suas contrapartes femininas, as Pombagiras) não são demônios, mas sim entidades protetoras que cuidam dos caminhos e fazem a comunicação entre os mundos material e espiritual. Exus são francos, resolvem demandas e desfazem energias negativas, atuando na chamada "linha da esquerda" (mais ligada à terra).

  • Pombagiras – espíritos femininos, muitas vezes de mulheres que em vida tiveram personalidade forte. Atuam também na linha de esquerda ao lado dos Exus, ajudando em questões amorosas, de autoestima e na purificação de energias, sempre com alegria e determinação.

Essas entidades espirituais incorporam nos médiuns durante as giras (sessões) de Umbanda para aconselhar e ajudar os fiéis. Todos são considerados “espíritos de luz”, ou seja, trabalham apenas para o bem. Vale destacar que, em vertentes muito influenciadas pelo cristianismo (chamadas às vezes de Umbanda Branca), evita-se o culto a Exus e Pombagiras sob a alegação de serem espíritos menos evoluídos. Contudo, na visão tradicional umbandista – herdeira das raízes africanas – não se faz uma divisão maniqueísta absoluta entre o “bem” e o “mal” no plano espiritual. Exus e Pombagiras, quando cultuados, são vistos como parte necessária da cosmologia, atuando como guardiões e executores da lei kármica, e não como entidades malignas. Essa diferença ilustra a diversidade interna da Umbanda em relação à interpretação de suas entidades: alguns terreiros mais “espíritas” enfatizam anjos e santos, enquanto terreiros mais “africanistas” cultuam todos os orixás e guias sem restrições, incluindo Exus com profundo respeito.

Ritos, práticas e estrutura dos terreiros


 Vista de um congá (altar) em um terreiro de Umbanda, com imagens sincréticas de santos católicos e orixás. O congá é o espaço sagrado central do templo umbandista, simbolizando a integração entre diferentes tradições espirituais.

As cerimônias da Umbanda são chamadas comumente de giras ou sessões. Elas ocorrem nos terreiros, que são os templos ou centros onde os fiéis se reúnem para o culto. A estrutura física e a organização de um terreiro de Umbanda refletem o sincretismo e a função de cada elemento no ritual. Um elemento central é o Congá, o altar onde ficam as imagens sagradas – costuma reunir estátuas de santos católicos (como Jesus, Maria, santos padroeiros) ao lado de imagens ou símbolos dos orixás e dos guias da Umbanda. Essa combinação no altar ilustra a filosofia umbandista de que todas essas figuras representam diferentes faces de uma mesma busca espiritual. No congá também se acendem velas e se colocam oferendas (flores, perfumes, copos de água etc.) dedicadas às entidades.

Além do altar principal, muitos terreiros possuem uma tronqueira ou porteira, que é um ponto de firmeza para Exu na entrada do terreno (geralmente marcado por um símbolo ou pedra) – uma espécie de altar menor onde se acende vela para os guardiões do local. Também é comum haver um cruzeiro das almas, com uma cruz, em memória aos espíritos antepassados e sofredores, evocando a proteção e a elevação dessas almas. Todos esses espaços compõem a geografia sagrada do terreiro.

As giras geralmente se iniciam com uma prece de abertura (muitas vezes o Pai-Nosso, a Ave-Maria ou a Prece de Cáritas, oriunda do espiritismo) entoada por todos, e cânticos chamados pontos cantados. Os pontos são músicas ritualísticas que servem para invocar as entidades e orixás, criando a ambiência espiritual propícia. Podem ser acompanhados por palmas rítmicas e pelo toque de atabaques (tambores) – embora, como mencionado, alguns segmentos tradicionais de Umbanda tenham restringido o uso dos atabaques, muitas casas os utilizam moderadamente para sustentar o canto e a dança dos médiuns em transe. Os médiuns (também chamados cavalos ou aparelhos) formam uma roda e, ao som dos pontos, incorporam as entidades anunciadas pelas músicas. Cada guia possui seus pontos específicos de saudação e despedida.

Uma vez incorporados nos médiuns, os guias espirituais começam os atendimentos. Em uma gira típica, inicialmente podem manifestar-se os Exus e Pombagiras (geralmente em giras específicas, na gira de esquerda), ou então iniciam pelos Caboclos e Pretos-Velhos (na gira de direita). As entidades costumam dar passes espirituais (limpezas energéticas nos consulentes), aconselhar sobre problemas pessoais, receitar banhos de ervas ou chás, e descarregar energias negativas que possam estar afetando os participantes. Todo esse trabalho espiritual é oferecido como caridade, sem cobrança financeira – um princípio fortemente enfatizado na Umbanda.

Cada tipo de espírito tem suas preferências ritualísticas: por exemplo, pretos-velhos frequentemente pedem cachimbos ou cigarros de palha e café ou rapadura, simbolizando sua sabedoria e tranquilidade; caboclos podem usar penachos ou beber ervas amargas ou cachaça e fumar charutos, evocando a força indígena; crianças gostam de doces, guaraná e brinquedos, simbolizando pureza; exus e pombagiras aceitam marafo (bebida destilada) e fumos fortes, e gostam de cores vermelho e preto. Esses elementos são oferecidos cerimonialmente, de forma controlada, como parte do assentimento da energia da entidade – por exemplo, um preto-velho acende o cachimbo e espalha a fumaça (defumação) ao redor do consulente como passe de limpeza espiritual. Tudo é feito com muito respeito e dentro de limites éticos (sempre visando o bem).

hierarquia dentro do terreiro de Umbanda costuma ser menos rígida que em tradições como o candomblé, mas ainda assim existem funções definidas. O dirigente do terreiro é o sacerdote ou sacerdotisa, chamado popularmente de Pai-de-santo (Babalorixá) ou Mãe-de-santo (Ialorixá), que detém a autoridade espiritual e conduz os ritos. Ele ou ela é responsável por iniciar e encerrar as giras, doutrinar os filhos-de-santo e zelar pelos fundamentos da casa. Abaixo do pai/mãe, podem existir os pai-pequeno/mãe-pequena (auxiliares diretos, capazes de dirigir trabalhos na ausência do líder), os ogãs (encarregados dos atabaques e cantos, não entram em transe) e as ekedis (mulheres que também não incorporam, mas auxiliam servindo as entidades). Há também os cambonos, que são assistentes de campo: eles ajudam os médiuns incorporados, trazendo os objetos solicitados pelas entidades (água, charuto, vela etc.), anotando consultas e mantendo a ordem durante a gira. Os novos frequentadores que ainda não são iniciados formam a assistência ou platéia, participando com fé e respeito, e aos poucos podem vir a se tornar filhos-de-santo (médiuns em desenvolvimento) se forem aceitos e desenvolvendo sua mediunidade.

Um aspecto essencial da ritualística umbandista é a ideia de limpeza e proteção espiritual. Para isso, realizam-se frequentemente os banhos de ervas (antes das giras, os médiuns tomam banhos com folhas maceradas, como arruda, guiné, manjericão, abre-caminho, entre outras, para purificar a aura) e as defumações no ambiente (queimar resinas, ervas e carvão em turíbulos, espalhando a fumaça pelo terreiro para afastar miasmas). Há também rituais específicos de descarrego, que podem incluir rodar uma fogueira ou pólvora no chão para queimar cargas negativas, ou o uso de pemba (giz ritual) para riscarem-se símbolos sagrados no chão, chamados pontos riscados, que servem de portais de força para as entidades trabalharem.

Em linhas gerais, a prática da Umbanda busca consolar, curar e orientar. Os terreiros oferecem atendimentos comunitários, muitos funcionam como verdadeiros centros assistenciais, dando suporte espiritual e material (distribuição de alimentos, roupas) aos mais necessitados. Essa ênfase na caridade é uma herança do espiritismo kardecista, abraçada profundamente pela Umbanda. Por isso se diz comumente que “a Umbanda é a manifestação do espírito para a prática da caridade”.

Evolução histórica e expansão no Brasil

Após a fundação em 1908, a Umbanda cresceu rapidamente nas décadas seguintes, especialmente no eixo Rio de Janeiro – São Paulo. No Rio (então Distrito Federal e depois Estado da Guanabara), multiplicaram-se terreiros nos subúrbios e áreas centrais. Conforme mencionado, já em 1918 havia diversas tendas funcionando e, segundo relatos, até a morte de Zélio em 1975 já existiam mais de 10 mil terreiros espalhados pelo Brasil. A religião se mostrou altamente adaptável, expandindo-se também para outros estados. Na década de 1930, terreiros de Umbanda surgiram em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, levados por migrantes cariocas e pela divulgação boca a boca. Em 1939, um esforço de organizar nacionalmente o movimento resultou na criação da União Espírita de Umbanda do Brasil (UEUB), no Rio de Janeiro. Em 1941, essa entidade promoveu o I Congresso Brasileiro de Umbanda, tentando unificar e codificar a Umbanda como religião. Nesse congresso – influenciado por ideais da classe média branca espírita – decidiu-se adotar as obras de Allan Kardec como base doutrinária e buscou-se diferenciar a Umbanda de outras religiões afro-brasileiras, evitando associações com “feitiçaria” ou “primitivismo”. Em consequência, houve uma tendência ao “branqueamento” da Umbanda: enfatizaram-se princípios cristãos e espíritas e desencorajaram-se certos traços africanos (como ofertar comidas de santo ou usar línguas africanas nos cânticos). Apesar dessas resoluções, muitos terreiros tradicionais não aderiram totalmente a elas.

Essa dualidade marcou a história da Umbanda no pós-guerra. De um lado, formou-se a chamada Umbanda Branca ou de Mesa, mais alinhada com o espiritismo kardecista e com forte sincretismo católico, valorizando conceitos “elevados” e evitando elementos africanos considerados “baixos”. De outro lado, persistiu (e cresceu) a Umbanda popular ou Umbanda traçada, que continuou incorporando livremente os atabaques, a evocação dos orixás e práticas de origem afro, muito próximas da macumba carioca original. Historiadores apontam que a macumba e a Umbanda se bifurcaram: “um grupo atrelado ao Espiritismo, abolindo práticas consideradas primitivas como sacrifício animal e uso de atabaques, deu origem à Umbanda Branca de Zélio; outro grupo continuou com essas práticas e foi relegado à marginalidade pelos mais elitistas, sendo conhecido como Umbanda popular”.

Nos anos 1950, houve reações contra a supremacia da UEUB. Em 1950, no Rio, o babalorixá Tancredo da Silva Pinto liderou a criação da Federação Umbandista do Culto Afro-Brasileiro, justamente para dar voz aos terreiros que mantinham os ritos africanos e sofriam preconceito. Essa federação defendia orgulhosamente as origens negras da Umbanda e se opunha à tendência de “embranquecimento” doutrinário. Ela também articulou eventos e expandiu sua atuação para outros estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco, contribuindo para estabelecer a Umbanda nesses locais. Assim, já em meados do século XX a Umbanda estava presente em praticamente todo o território nacional, adaptando-se às particularidades regionais – por exemplo, no Nordeste muitas vezes se mesclou com tradições do Candomblé, dando origem a modalidades como a Umbanda de Almas e Angola; no Sul, incorporou influências do espiritismo europeu e das tradições locais.

A Umbanda atingiu grande popularidade entre as décadas de 1960 e 1970. Nessa época, ela atraiu não apenas as camadas populares mas também segmentos da classe média urbana, tornando-se quase “moda espiritual” em alguns centros urbanos. Terreiros lotavam, e a Umbanda se estruturou também em ações sociais: no III Congresso de Umbanda, em 1973, destacou-se o envolvimento dos umbandistas em escolas, creches e ambulatórios comunitários, reforçando o aspecto assistencial da religião. Muitos artistas e figuras públicas declararam-se umbandistas, ajudando a melhorar a imagem da religião. Entre os famosos ligados à Umbanda estiveram Clara Nunes, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Martinho da Vila, Raul Seixas, entre outros músicos e compositores importantes. Canções populares, como “Canto das Três Raças” (de Clara Nunes) ou pontos cantados gravados em discos, levaram temas umbandistas ao grande público. Essa exposição contribuiu para diminuir um pouco o preconceito, embora geralmente a aceitação maior recaísse sobre a Umbanda mais sincretizada e “branqueada” (com imagens de santos e discurso cristão), enquanto a Umbanda de raiz africana continuou enfrentando estigmas.

A partir do final da década de 1980 e sobretudo nos anos 1990, a Umbanda (assim como o Candomblé) passou a enfrentar um novo desafio: o crescimento das igrejas neopentecostais no Brasil. Certas denominações neopentecostais adotaram uma postura fortemente combativa contra as religiões afro-brasileiras, classificando-as como “cultos do demônio”. Houve então um aumento de casos de intolerância religiosa e ataques a terreiros. Essa hostilidade gerou um declínio no número de praticantes assumidos, e muitos umbandistas passaram a cultuar de forma mais discreta ou a se identificar como “espíritas” ou “católicos” para evitar discriminação. Veremos esses aspectos da situação contemporânea a seguir.

Apesar dos desafios, a Umbanda continuou evoluindo e se diversificando. Novas vertentes surgiram ao longo do século XX, como a Umbanda Esotérica (fundada por W. W. da Matta e Silva nos anos 1950, incorporando conceitos de ocultismo e teosofia), a Umbandaime (fusão de Umbanda com o uso do chá ayahuasca do Santo Daime), e outras ramificações regionais. Em 2003, foi até inaugurada em São Paulo a Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), primeira instituição de ensino superior voltada à religião umbandista, um sinal da busca por reconhecimento acadêmico e formação sistematizada de lideranças.

Hoje, ao olhar para a trajetória histórica, reconhece-se que a Umbanda passou de um culto marginal nas primeiras décadas do século XX para uma religião estabelecida e com significativa influência cultural no Brasil. Seu percurso envolveu momentos de perseguição, fases de ampla aceitação e subsequentemente resistência frente a novas formas de intolerância – uma história de resiliência e adaptação contínua.

Sincretismo religioso na Umbanda

sincretismo religioso é uma marca fundamental da Umbanda, presente em praticamente todos os seus aspectos. Por sincretismo entendemos a fusão e reinterpretação de símbolos e conceitos de diferentes religiões dentro de um novo sistema coerente. No caso da Umbanda, há principalmente o sincretismo entre elementos do catolicismo, do espiritismo kardecista, das religiões africanas (iorubá, bantu) e das crenças indígenas brasileiras. Essa mistura ocorreu de forma espontânea e estratégica: os primeiros umbandistas, muitos vindos do meio do candomblé e da macumba, usaram os santos católicos como fachada ou equivalente aos orixás africanos (prática que remonta à época da escravidão, quando os escravos ocultavam o culto de seus deuses venerando-os sob imagens de santos). Com o tempo, essa associação deixou de ser apenas disfarce e virou parte integrante da fé – o fiel acredita simultaneamente no orixá e no santo católico como expressões de uma mesma força divina.

Assim, praticamente todos os orixás possuem um santo católico correspondente na Umbanda. Alguns exemplos já mencionados: Oxalá é associado a Jesus Cristo (ou ao Senhor do Bonfim, no sincretismo baiano); Ogum é sincretizado com São Jorge (especialmente no Rio de Janeiro, onde São Jorge é extremamente popular); Oxóssi (orixá das matas e da caça) é ligado a São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio e santo associado à proteção nas matas; Xangô (orixá do trovão e da justiça) é às vezes equiparado a São Jerônimo ou a São João Batista, dependendo da região; Iansã (orixá dos ventos e tempestades) é comumente sincretizada com Santa Bárbara, padroeira contra relâmpagos; Iemanjá (rainha do mar) tem paralelo em diversas invocações marianas, principalmente Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora dos Navegantes. Essa dupla referência não gera conflito para o umbandista, pelo contrário: enriquece seu imaginário religioso. Nos terreiros, é comum ver no congá imagens de santos católicos ao lado de imagens de caboclos e pretos-velhos, todas recebendo velas e preces juntas. Por exemplo, uma imagem de São Jorge montado no cavalo pode representar tanto o santo como Ogum; uma estátua de Nossa Senhora Aparecida pode ser referência a Oxum; uma imagem de Santo Antônio às vezes é louvada como Xangô etc. Desse modo, altar da Umbanda é ecumênico por excelência.

espiritismo kardecista também foi absorvido em grande medida. Conceitos como reencarnaçãocarma (lei de causa e efeito), comunicação mediúnica com espíritos, a moral cristã do Evangelho Segundo o Espiritismo e a ideia de evolução do espírito estão presentes nos ensinamentos umbandistas. Muitos terreiros leem trechos do Evangelho ou de obras de Kardec durante as sessões de desenvolvimento mediúnico. A própria prática de caridade através do aconselhamento espiritual gratuito vem da influência kardecista. Alguns terreiros funcionam quase como “centros espíritas” com imagens de orixá – realizam sessões de mesa branca em certos dias e giras de Umbanda em outros, conciliando as duas práticas. O antropólogo Emerson Giumbelli descreve a Umbanda, sob essa ótica, como uma espécie de “espiritismo abrasileirado”, que valorizou o papel dos espíritos de caboclos e pretos-velhos como guias, coisa que o espiritismo europeu não contemplav. Ou seja, a Umbanda incorporou a estrutura doutrinária do espiritismo, porém incluindo na comunicação espiritual as entidades da terra brasileira (índios, antigos escravos) que personificavam a identidade nacional e a reconciliação entre raças.

Da herança africana, além dos orixás, a Umbanda retém diversas práticas e terminologias: o uso ritual de ervas sagradas para banhos e defumações (muito do conhecimento de ervas veio das tradições afro-indígenas), a ideia de oferecer comida ou bebida às entidades (ainda que sem sacrifício animal, fazem-se oferendas de frutas, pratos cozidos, etc., em matas, praias ou cachoeiras para determinados orixás, semelhante ao candomblé), os pontos cantados com toques de atabaque, muitos dos quais em linguajar africano estilizado ou contendo palavras em iorubá ou banto, e até mesmo a estrutura de hierarquia de terreiro (conceitos de pai-de-santo, mãe-pequena, ogã, etc., vieram dos modelos dos cultos nagô e bantu). Embora a Umbanda utilize a língua portuguesa na maioria de seus cânticos, não raro aparecem termos como saravá (saudação derivada de salve, ová do quimbundo), axé (força, energia em iorubá), orô (reza), ogum yê (saudação a Ogum), entre outros africanos.

Da tradição indígena brasileira, a Umbanda incorporou principalmente a figura do caboclo e diversos elementos de rituais xamânicos. Por exemplo, o uso do fumo e da fumaça para benzer e limpar – algo presente nas pajelanças e também nos pretos-velhos. Alguns cantos imitam fonemas indígenas ou exaltam Tupã (termo indígena para Deus). Em certos terreiros, os caboclos utilizam ervas nativas e passam rezas de cura com raízes e cascas, lembrando a medicina indígena. Existe até uma linha de trabalho chamada Linha do Oriente, que inclui espíritos de diversas culturas (indígenas, ciganos, asiáticos, etc.), mostrando a abertura sincrética da Umbanda a incorporar espíritos de diferentes origens e tradições.

Esse sincretismo multifacetado nem sempre foi unanimidade dentro da Umbanda. Houve momentos históricos de reflexão e até rejeição de partes desse caldeirão cultural. Por exemplo, após o primeiro congresso de 1941, certos umbandistas declararam que a palavra “Umbanda” teria origem no sânscrito (aum-bandha, “o limite do ilimitado”) ao invés de língua bantu, numa tentativa de “arianizar” a origem da religião. Outros, como já citado, preferiram abolir quase totalmente as referências aos orixás, focando apenas em guias espirituais em moldes kardecistas (surgiu daí a Umbanda de Mesa ou Umbanda Branca, onde as sessões se parecem muito com cultos espíritas tradicionais). Por outro lado, houve e há terreiros que praticam a chamada Umbandomblé, que é a Umbanda fortemente entrelaçada com o Candomblé – nesses, celebra-se missa e gira de Umbanda mas também se realizam oferendas para orixás com festas e às vezes até sacrifícios (situação mais comum no Nordeste). Esses exemplos mostram que “a” Umbanda na verdade abrange um espectro amplo de estilos rituais e teológicos, indo do quase-católico ao quase-africano. Contudo, todos compartilham a ideia central de que não há conflito em servir a Deus através de múltiplos caminhos simultaneamente. A Umbanda, em suma, é sincrética por natureza: ela nasceu da mistura e faz dessa mistura a sua força e identidade.