João Cândido Felisberto
Biografia
Filho do
pós-Abolição, João Cândido Felisberto nasce no sul do Brasil em família
pobre e negra. Cresce ouvindo histórias de mar e de trabalho duro. A infância
curta o empurra cedo ao ofício náutico: disciplina, farda, pouco soldo; um
horizonte de água que mistura encanto e dureza.
Na
Marinha, aprende com rapidez. Embarca em navios modernos, convive com técnicas
recém-chegadas da Europa, observa máquinas, bússolas e mapas. Homem negro,
percebe a contradição: tecnologia de ponta, mas castigos coloniais ainda
impostos aos marinheiros, sobretudo negros.
Sua
liderança é serena e firme. Fala baixo, decide com calma, escuta
companheiros. A autoridade vem do respeito: saber de bordo, coragem de assumir
a frente e senso de justiça. Entre turnos, escreve cartas, guarda lembranças da
família e sonha com um futuro sem humilhação.
Em 1910,
de volta à Baía de Guanabara, encontra o estopim: a chibata como rotina
disciplinar. A dor dos corpos negros vira pauta moral. João Cândido, ao lado de
centenas de marinheiros, escolhe a voz coletiva — “fim da chibata, anistia,
melhores condições” — como caminho.
Perseguido
após a revolta, conhece prisão e miséria. Recomeça como pescador e vendedor
de peixe no Rio. O tempo lhe devolve parte do nome: homenagens, canções,
estátuas. João Cândido permanece figura humana e política — o homem que quis
modernizar a disciplina com a mesma coragem que modernizou navios.