Nzinga de Matamba

 



Nzinga de Matamba

Biografia

Nzinga de Matamba (1583–1663), también conocida como Njinga Mbandi, fue una das figuras políticas, militares y espirituales mais influentes da história africana e afro-atlântica. Nascida no século XVI, no seio da aristocracia do povo Mbundu, Nzinga cresceu em um contexto de guerra, perda territorial e crescente ingerência portuguesa sobre os reinos da região onde hoje se localiza Angola. Desde pequena, foi formada para liderar. Seu pai, Ngola Kiluanji, permitiu que ela assistisse a reuniões políticas, acompanhasse decisões militares e recebesse formação em diplomacia, algo extremamente raro para meninas negras naquela época.

 Desde jovem, Nzinga destacou-se por sua inteligência estratégica e domínio das línguas — falava perfeitamente o português, o que mais tarde lhe permitiria negociar com os colonizadores em termos incomuns para uma mulher africana do século XVII. Em 1622, representando seu irmão em Luanda, Nzinga realizou um dos momentos mais simbólicos de sua trajetória: ao perceber que não lhe haviam preparado assento na sala de reunião com o governador português, ordenou que uma de suas criadas se ajoelhasse e se sentou sobre suas costas — recusando, assim, qualquer submissão simbólica. Esse gesto atravessou a história como uma imagem da altivez de Nzinga frente ao poder europeu.

 Ao assumir o trono após a morte do irmão, ela enfrentou desafios internos (como tentativas de usurpação e traições) e externos (avanço militar português). Alternando entre táticas de guerra, conversões políticas (chegou a se batizar como Ana de Sousa, estrategicamente), alianças com os holandeses e uso da espiritualidade tradicional, Nzinga transformou o reino de Matamba em uma fortaleza de resistência. Suas tropas eram formadas em grande parte por mulheres, e o próprio conselho real era composto por lideranças femininas — algo radical até mesmo no próprio continente africano.

 Nzinga criou políticas de acolhimento para povos perseguidos e formou comunidades autônomas no interior da floresta. Muitos destes espaços eram refúgios para africanos fugindo do tráfico escravagista — com destino prioritário, inclusive, ao Brasil. Portanto, sua luta não se restringe à soberania africana, mas também à preservação de vidas negras diante da máquina escravista atlântica. Nzinga resistiu durante mais de 40 anos, mantendo o poder, o território e a dignidade de seu povo.

 Morreu aos 80 anos, sem jamais ter sido derrotada. É lembrada até hoje não só como rainha e guerreira, mas como ancestral mítica da liberdade africana. Em vários terreiros de candomblé, seu nome é evocado em cantos de louvação, e nas comunidades afrodescendentes ela representa o elo com uma África viva, pensante e resistente — muito diferente da visão colonizada, passiva ou subalterna ensinada por séculos. Nzinga foi, é e será um dos maiores nomes da história negra global. ________________________________________