Notas Didatícas Candomble

 

Candomblé 


🎓 Notas Didáticas – Axé no Terreiro

Análise verso a verso


🎵 Verso 1 – A Criação:
"Olodumare no céu teceu a luz… Oxalá vestiu branco, moldou o humano…"
🔍 Interpretação: Introduz a cosmogonia do Candomblé. Olodumare é o princípio criador. Oxalá, associado à criação da humanidade, molda com barro e sopro vital. Yemanjá, Ogum e Xangô são apresentados como pilares da natureza e da força espiritual.


🎵 Refrão:
"Ê, axé! Ê, axé! No atabaque o sagrado bate pé."
🔍 Interpretação: Celebra o axé — força vital que move o mundo. O atabaque é mais que instrumento: é condutor espiritual. O Candomblé é corpo, som, fé e território.


🎵 Verso 2 – Os Orixás Guerreiros:
"Oxóssi… Iansã… Obaluaiê… Oxum…"
🔍 Interpretação: Cada orixá é apresentado com seus domínios simbólicos: mata, vento, cura, água, amor. A letra revela que o Candomblé é ciência da natureza e afeto — cada divindade espelha aspectos da vida e da alma.


🎵 Ponte – Os Princípios:
"Respeito ao mais velho… folha sagrada… Ebó no assentamento…"
🔍 Interpretação: Enuncia os fundamentos éticos e rituais do Candomblé: respeito à ancestralidade, sacralidade da natureza, oferendas como equilíbrio, e o búzio como linguagem do destino.


🎵 Verso 3 – A Resistência:
"Na senzala escondido… Mãe Menininha…"
🔍 Interpretação: Narra a perseguição e sobrevivência da religião afro-brasileira. O sincretismo com o catolicismo garantiu proteção. Mãe Menininha do Gantois é símbolo da preservação e dignidade do culto.


🎵 Verso 4 – A Celebração:
"Na roda de Xangô… O povo de santo gira…"
🔍 Interpretação: O culto é movimento e celebração da vida. O transe não é descontrole, mas canal espiritual. O Ogã e a Ekede são funções fundamentais que sustentam o axé coletivo.


🎵 Coda:
"Àṣẹ o! Àṣẹ o!"
🔍 Interpretação: Àṣẹ é o princípio que realiza. A repetição em iorubá e a suavidade do atabaque encerram a música com reverência e poder.


📚 Conexões com a BNCC

📘 História / Ensino Fundamental (Anos Finais)

  • EF09HI06 – Reconhecer as contribuições das religiões afro-brasileiras na formação cultural nacional.
    → A canção mostra o Candomblé como matriz viva de saber, espiritualidade e arte.

  • EF09HI08 – Analisar os impactos da intolerância religiosa e do racismo estrutural.
    → O trecho da repressão e o papel de Mãe Menininha evidenciam o silenciamento e a luta pela liberdade religiosa.

📘 Ensino Religioso / Interdisciplinaridade

  • EREMEF09ER01 – Explorar a diversidade das tradições religiosas com ênfase em valores e símbolos.
    → A letra aborda cosmogonia, funções litúrgicas, rituais, sincretismo e ética espiritual.

📘 Língua Portuguesa

  • EF69LP08 / EF69LP09 – Interpretar textos poéticos com função cultural e simbólica.
    → A canção mistura metáfora, mitologia e pedagogia ancestral de forma lírica e crítica.


✏️ Sugestões Pedagógicas

  • Atividade 1: Painel visual com os orixás citados, seus domínios naturais e atributos simbólicos.

  • Atividade 2: Discussão sobre sincretismo: Por que os orixás se camuflaram em santos?

  • Atividade 3: Montar uma linha do tempo com figuras como Mãe Menininha, Mãe Stella e outros(as) zeladores(as).

  • Atividade 4: Oficina de música com ritmo de atabaque (simulado com palmas, caixas ou instrumentos escolares).

  • Atividade 5: Redação coletiva: “O que é axé para mim?” seguida de leitura em roda.

Glossário de Termos e Orixás:

Chaves Filosóficas:

• Axé: Força vital que tudo move.
• Respeito à natureza: Cada Orixá está ligado a um elemento natural.
• Comunidade: O terreiro como espaço de cura e resistência coletiva.

Esta letra da musica busca educar sem estereótipos, mostrando o Candomblé como uma filosofia viva.




Use a música para:

Frase final para os alunos:




Guia de Estudos: Candomblé, Ancestralidade e Resistência

Questionário de Resposta Curta
  1. Quais são as principais raízes africanas do Candomblé e como essas tradições chegaram ao Brasil?
  1. Explique o que é o sincretismo religioso no contexto do Candomblé e por que ele foi utilizado como uma estratégia.
  1. Qual a importância dos terreiros na história do Candomblé e o que eles representavam para as comunidades afro-brasileiras?
  1. Cite duas das primeiras "casas de axé" institucionalizadas e mencione as três principais "nações" do Candomblé que surgiram a partir delas.
  1. Como o Candomblé foi tratado pela legislação e pela sociedade brasileira após a abolição da escravidão em 1888?
  1. Defina o conceito de "axé" e explique sua importância na cosmovisão do Candomblé.
  1. Descreva brevemente a função de dois rituais centrais do Candomblé, como a Iniciação e o Jogo de Búzios.
  1. Quem foi Mãe Menininha do Gantois e qual o seu legado para a história do Candomblé?
  1. Quais são os principais desafios enfrentados pelo Candomblé na atualidade, conforme mencionado no texto?
  1. Com base na música "Axé no Terreiro", como a cosmogonia (criação do mundo) iorubá é apresentada?
Gabarito do Questionário
  1. As raízes do Candomblé vêm das cosmovisões de povos como os iorubás, fons e bantus, que foram sequestrados da África e escravizados no Brasil entre os séculos XVI e XIX. Essas tradições religiosas complexas foram trazidas através da memória dos escravizados e reconstruídas em solo brasileiro como um ato de resistência cultural.
  1. O sincretismo religioso foi a estratégia de associar os Orixás aos santos católicos, como Oxalá a Jesus Cristo e Iemanjá a Nossa Senhora da Conceição. Essa camuflagem foi um modo inteligente de proteger e preservar a fé nos Orixás, Voduns e Inkices, já que o catolicismo era a única religião imposta e permitida durante a colonização.
  1. Os terreiros surgiram como santuários da resistência espiritual e cultural, geralmente em áreas periféricas onde era possível celebrar os rituais longe da perseguição. Eles se tornaram espaços sagrados de liberdade e famílias espirituais, onde práticas como o toque dos atabaques, danças rituais e o jogo de búzios se firmaram.
  1. Duas das primeiras casas institucionalizadas foram o Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca do Engenho Velho) e o Ilê Axé Opô Afonjá. A partir dessas casas, surgiram as nações Ketu (iorubá), Jeje (fon) e Angola (bantu).
  1. Após a abolição, o Candomblé continuou a ser perseguido e criminalizado, com suas práticas enquadradas como "curandeirismo" ou "feitiçaria" pelos códigos penais. Terreiros eram invadidos pela polícia, objetos sagrados destruídos e sacerdotes presos, em uma perseguição baseada no racismo e no desprezo pelas culturas africanas.
  1. Axé é a energia vital que conecta todos os seres — humanos, divinos e naturais — e que sustenta o equilíbrio cósmico. No Candomblé, o axé é a força que tudo move, sendo um princípio filosófico central que circula entre os Orixás, a natureza e as pessoas.
  1. A Iniciação (Feitura de Santo) é um rito de passagem profundo e transformador na vida do praticante. O Jogo de Búzios é uma consulta oracular utilizada para entender os caminhos espirituais e orientar as decisões dos fiéis.
  1. Mãe Menininha do Gantois foi uma das mais importantes mães de santo do Brasil, liderando o terreiro do Gantois. Ela se tornou um símbolo de sabedoria, acolhimento, respeito entre religiões e da resistência que garantiu a preservação e a dignidade do culto.
  1. Atualmente, o Candomblé enfrenta a intolerância religiosa, manifestada em violência física e simbólica; o racismo religioso, que desvaloriza a cultura afro; e a perda de espaços sagrados devido à urbanização e especulação imobiliária.
  1. Na música, a cosmogonia iorubá é apresentada com Olodumare como o princípio criador que "teceu a luz", e Oxalá como o Orixá que "moldou o humano" a partir do barro de Nanã. Orixás como Yemanjá, Ogum e Xangô são introduzidos como pilares que governam elementos da natureza, como o mar, as florestas e a justiça.
Questões para Dissertação
  1. Discuta como o Candomblé, nascido em um contexto de opressão e violência, se tornou um símbolo de resistência cultural e um "ato político, espiritual e poético" para a população afro-brasileira.
  1. Analise a dualidade do sincretismo religioso: de que maneira ele funcionou como uma ferramenta de sobrevivência para o Candomblé e quais foram as possíveis consequências dessa prática para a identidade original da religião?
  1. Compare a perseguição ao Candomblé no início do século XX com os desafios enfrentados pela religião na atualidade, como a intolerância e o racismo religioso. Quais são as continuidades e as mudanças nessas formas de opressão?
  1. Com base na filosofia do Candomblé apresentada no texto (axé, equilíbrio, destino, comunalidade), explique como essa religião oferece um sistema de vida e uma forma de entender o mundo que vai além da prática espiritual.
  1. Explique o papel de figuras de liderança, como Mãe Aninha, Mãe Menininha do Gantois e Mãe Stella de Oxóssi, na transição do Candomblé da marginalidade para o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Este guia foi elaborado para aprofundar a compreensão sobre o Candomblé, explorando sua história, filosofia, rituais e papel como pilar da cultura afro-brasileira, com base no material de referência.

Responda às seguintes perguntas com duas a três frases, utilizando apenas as informações do texto de apoio.

Reflita sobre os temas abaixo e estruture respostas completas em formato de dissertação.

Glossário de Termos Essenciais

Termo

Definição

Alujá

Ritmo sagrado dos atabaques, tocado para a dança dos Orixás.

Atabaque

Instrumento de percussão, considerado um condutor espiritual nos rituais.

Axé

A energia vital, sagrada e divina que conecta e move todos os seres e elementos do universo. É o princípio que realiza e sustenta o equilíbrio cósmico.

Ayé

O mundo material, a Terra, que está interligado ao mundo espiritual.

Bantu

Grupo de povos originários do Congo, Angola e Moçambique, cujas tradições formaram a nação Angola do Candomblé.

Candomblé

Religião e sistema filosófico afro-brasileiro que une seres humanos aos Orixás, baseado em tradições dos povos iorubá, fon e banto.

Ebó

Oferta ritual (alimento, velas, folhas) feita para restaurar o equilíbrio das energias ou agradecer aos Orixás.

Ekede

Função litúrgica feminina fundamental no terreiro, responsável por auxiliar e dar suporte durante os rituais.

Erê

Estado de consciência infantil que pode se manifestar durante o transe, mediando a comunicação entre o Orixá e o humano.

Fon

Povo originário do antigo Daomé (atual Benin), cujas tradições deram origem à nação Jeje do Candomblé.

Gantois

Um dos terreiros mais importantes e simbólicos do Brasil, localizado na Bahia e notabilizado pela liderança de Mãe Menininha.

Ilê Axé Opô Afonjá

Um dos terreiros fundadores do Candomblé no Brasil, estabelecido por Mãe Aninha.

Inkices

Divindades cultuadas na nação Angola, correspondentes aos Orixás iorubás.

Iorubá

Povo originário da Nigéria e do Benin, cujas tradições formaram a nação Ketu, a mais difundida do Candomblé.

Jogo de Búzios

Sistema oracular de consulta aos Orixás, utilizado para orientação e entendimento dos caminhos espirituais.

Mãe Menininha do Gantois

Uma das mais importantes e respeitadas mães de santo da história, símbolo de sabedoria e acolhimento inter-religioso.

Nações

As diferentes vertentes do Candomblé, organizadas a partir de suas origens étnico-linguísticas africanas (ex: Ketu, Jeje, Angola).

Ogã

Função litúrgica masculina, responsável principalmente pelo toque dos atabaques e pela sustentação rítmica e espiritual do terreiro.

Olodumare

O Deus supremo e princípio criador de tudo na cosmogonia iorubá.

Ori

A cabeça espiritual, que representa o destino individual de cada pessoa, escolhido antes do nascimento.

Orixás

Divindades que representam as forças da natureza e os arquétipos humanos. Atuam como intermediários entre os seres humanos e Olodumare.

Òrún

O mundo espiritual, onde habitam os Orixás e os ancestrais, interligado ao mundo material (Ayé).

Sincretismo

Estratégia de associar divindades africanas (Orixás) a santos da religião católica como forma de proteção e sobrevivência cultural durante a colonização.

Terreiro

Espaço sagrado onde se praticam os rituais do Candomblé, funcionando como santuário, escola, altar e comunidade espiritual.

Voduns

Divindades cultuadas na nação Jeje, correspondentes aos Orixás iorubás.



Proposta Pedagógica: O Candomblé como Patrimônio Cultural e Ferramenta de Ensino para a Diversidade

1.0 Introdução

Esta proposta pedagógica foi elaborada como uma ferramenta para educadores comprometidos com a promoção da diversidade cultural, o combate à intolerância e a construção de uma educação genuinamente antirracista. Seu objetivo é orientar a inclusão do estudo do Candomblé no ambiente escolar, posicionando-o como um componente essencial para a compreensão da identidade brasileira e o cumprimento efetivo da legislação sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira.

A integração do Candomblé no currículo escolar é de importância estratégica, pois transcende o campo estritamente religioso. Trata-se de apresentar aos estudantes um complexo "sistema de vida" e uma profunda "história de resistência" que foram fundamentais para a sobrevivência física e espiritual de milhões de africanos e seus descendentes no Brasil. Trazido ao Brasil pelos povos iorubá, fon e banto durante o período da escravidão, o Candomblé – religião de matriz africana centrada no culto aos Orixás (divindades da natureza) e na energia vital (axé) – é hoje reconhecido como "Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil" pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), um testemunho de sua relevância e profundidade cultural.

Diante disso, o objetivo deste documento é fornecer uma base teórica sólida e sugestões práticas, alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para que educadores possam trabalhar o tema em sala de aula de forma respeitosa, aprofundada e pedagogicamente eficaz.

2.0 Justificativa: A Relevância do Candomblé no Contexto Educacional

A inclusão do estudo do Candomblé no currículo escolar não é uma escolha arbitrária, mas uma necessidade pedagógica e social. Justificar sua presença em sala de aula significa reconhecer seu papel central no cumprimento da legislação que versa sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, além de ser um passo fundamental na formação de cidadãos mais conscientes, empáticos e preparados para viver em uma sociedade plural. Ao abordar suas origens, filosofia e trajetória, a escola assume sua responsabilidade de educar para a diversidade e contra o preconceito.

Patrimônio Histórico e Cultural O Candomblé representa uma "ponte sagrada" com a ancestralidade africana, constituindo um dos mais importantes legados dos povos que foram forçados à diáspora. É uma história viva de "resistência e preservação cultural" que sobreviveu a séculos de opressão sistêmica, desde a violência da escravidão até a perseguição policial e legal no período republicano. A prática do sincretismo, que associava Orixás a santos católicos, não foi um ato de submissão, mas uma sofisticada "estratégia de proteção e camuflagem" que garantiu a continuidade de uma cosmovisão e de práticas rituais complexas. Estudar o Candomblé é, portanto, estudar a capacidade humana de resiliência e a genialidade em preservar a identidade contra todas as adversidades.

Ferramenta de Combate ao Racismo Religioso A desinformação é o principal combustível do preconceito. Ainda hoje, o Candomblé enfrenta manifestações de "intolerância religiosa" que, em sua essência, configuram "racismo religioso", uma forma de discriminação que desvaloriza e demoniza as matrizes culturais e espirituais africanas. A educação se apresenta como o caminho mais eficaz para desconstruir estereótipos e promover o respeito. Ao apresentar o Candomblé não como um conjunto de superstições, mas como uma tradição detentora de uma "profundidade filosófica e ética", a escola combate ativamente o racismo e ensina os alunos a valorizar o conhecimento produzido por diferentes culturas.

Promoção de uma Sociedade Plural A identidade nacional brasileira é intrinsecamente multicultural. Ignorar ou marginalizar as contribuições africanas é negar uma parte fundamental do que nos constitui como povo. O estudo do Candomblé em sala de aula contribui diretamente para a construção de um "Brasil mais plural e respeitoso com suas raízes africanas", permitindo que estudantes, independentemente de suas crenças pessoais, compreendam e valorizem a diversidade como um pilar da nossa sociedade. A escola, ao fazer isso, forma cidadãos capazes de reconhecer a riqueza que emana do diálogo entre diferentes visões de mundo.

Para efetivamente combater essa desinformação e valorizar este patrimônio, é imprescindível que o educador esteja munido de um conhecimento teórico sólido. A seção a seguir oferece essa base fundamental.

3.0 Fundamentação Teórica para Educadores

Esta seção oferece aos educadores um panorama com os conhecimentos essenciais sobre a história, a filosofia e a estrutura do Candomblé. As informações aqui contidas são baseadas exclusivamente no material de referência, com o intuito de fornecer uma base segura e precisa para o desenvolvimento das atividades em sala de aula, permitindo que os professores lecionem com confiança e clareza conceitual.

3.1 Breve Panorama Histórico: Da África ao Reconhecimento

A trajetória do Candomblé é uma jornada de resistência, ressignificação e afirmação cultural. Seus principais marcos podem ser sintetizados nos seguintes pontos:

  1. Raízes Africanas: O Candomblé tem origem nas complexas cosmovisões dos povos iorubás, fons e bantus, que foram trazidos de diferentes regiões da África para o Brasil como escravizados. Eles carregavam consigo sistemas filosóficos e religiosos estruturados, com divindades, rituais e uma profunda conexão com a natureza e a ancestralidade.
  2. A Travessia e a Resistência: Durante o tráfico transatlântico e o regime de escravidão, os africanos foram submetidos a um processo de violenta desumanização. Contudo, a memória religiosa sobreviveu como um poderoso ato de resistência, sendo reconstruída em solo brasileiro por meio da oralidade, dos cantos, das danças e do conhecimento sobre as ervas.
  3. O Sincretismo Estratégico: Diante da imposição do catolicismo, os praticantes desenvolveram o sincretismo como uma forma de "camuflagem". A associação de Orixás a santos católicos (como Ogum a São Jorge) permitiu a preservação dos cultos de forma velada, garantindo a continuidade da fé.
  4. A Formação dos Terreiros: Gradualmente, surgiram os terreiros (espaços sagrados de culto), inicialmente em locais clandestinos, que se tornaram verdadeiros "santuários da liberdade". No século XIX, foram fundadas as primeiras casas de axé institucionalizadas na Bahia, como o Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca), o Ilê Axé Opô Afonjá e o Gantois, que se tornaram matrizes para a expansão da religião.
  5. Perseguição e Liderança: Mesmo após a abolição, o Candomblé foi criminalizado como "curandeirismo" ou "feitiçaria". Nesse contexto de repressão, a liderança de Ialorixás (mães de santo) foi fundamental. Figuras como Mãe Aninha, fundadora do Opô Afonjá, e Mãe Menininha do Gantois, que se tornou um símbolo nacional de sabedoria e acolhimento, foram cruciais para a sobrevivência e o respeito à religião.
  6. Reconhecimento Cultural: A partir do século XX, estudos de intelectuais, a representação na literatura de Jorge Amado e a atuação de líderes como Mãe Stella de Oxóssi – que foi escritora e promotora da africanidade – ajudaram a dar visibilidade à complexidade do Candomblé. O Movimento Negro foi crucial ao reivindicá-lo como símbolo da identidade afro-brasileira, processo que culminou em seu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN.

3.2 Cosmovisão e Princípios Fundamentais

O Candomblé é guiado por uma filosofia sofisticada que organiza a relação entre o mundo material e o espiritual. Seus conceitos centrais incluem:

  • Axé: A energia vital sagrada que permeia e conecta todos os seres e elementos do universo, desde os Orixás até os seres humanos e a natureza. É a força que torna as coisas possíveis.
  • Equilíbrio: A busca pela harmonia é um princípio central. Acredita-se que doenças e desequilíbrios na vida de uma pessoa surgem de uma ruptura com a natureza, a comunidade ou os caminhos determinados por seu Orixá.
  • Destino e Ori: Cada indivíduo possui um destino pessoal, que é guiado por seu Ori, a "cabeça espiritual". Conhecer e alinhar-se ao seu Ori é fundamental para uma vida plena e equilibrada.
  • Comunalidade: O terreiro funciona como uma família espiritual, onde os laços de solidariedade são essenciais. O conhecimento é transmitido principalmente pela oralidade, e o bem-estar coletivo é valorizado acima do individual.

3.3 As Nações do Candomblé

As diferentes origens africanas deram origem a distintas vertentes, conhecidas como "nações", cada uma com suas particularidades litúrgicas, linguísticas e divindades. As três principais são:

  • Ketu (Iorubá): A nação mais difundida no Brasil, originária dos povos iorubás da Nigéria e Benin. Seu panteão é composto pelos Orixás.
  • Jeje (Fon): Proveniente dos povos fon do antigo Reino do Daomé (atual Benin). O culto é direcionado aos Voduns.
  • Angola (Bantu): Originada dos povos de língua bantu (Congo, Angola). O culto é voltado aos Inkices e dá grande ênfase à relação com a natureza e os ancestrais.

Com esta base teórica, é possível avançar para a aplicação prática dos conceitos em atividades pedagógicas estruturadas para a sala de aula.

4.0 Proposta de Aplicação Pedagógica

Esta seção traduz o conteúdo teórico apresentado em um plano de ação prático para a sala de aula. A proposta detalha objetivos de aprendizagem claros, seu alinhamento com a BNCC e sugestões de atividades concretas que utilizam uma ferramenta didática central para engajar os estudantes de forma significativa e respeitosa.

4.1 Objetivos de Aprendizagem

Ao final das atividades propostas, espera-se que os alunos sejam capazes de:

  • Reconhecer as contribuições fundamentais do Candomblé para a formação da cultura brasileira, incluindo a música, a dança e a relação com a natureza.
  • Analisar criticamente os processos históricos de perseguição, resistência e resiliência das religiões de matriz africana no Brasil.
  • Identificar os principais Orixás mencionados na proposta e seus respectivos domínios simbólicos na natureza (águas, ventos, matas, etc.).
  • Desenvolver uma postura de respeito, empatia e valorização diante da diversidade religiosa, combatendo preconceitos e estereótipos.

4.2 Alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

O estudo do Candomblé, conforme proposto, atende diretamente a diversas competências e habilidades previstas na BNCC, promovendo uma abordagem interdisciplinar.

Código e Competência da BNCC

Conexão com a Proposta

EF09HI06 (História)

A proposta permite reconhecer as contribuições das religiões afro-brasileiras na formação cultural nacional, mostrando o Candomblé como uma matriz viva de saber, espiritualidade e arte.

EF09HI08 (História)

Permite analisar os impactos da intolerância religiosa e do racismo estrutural, ao abordar a repressão histórica e o papel de figuras como Mãe Menininha na luta pela liberdade religiosa.

EREMEF09ER01 (Ensino Religioso)

A abordagem explora a diversidade das tradições religiosas com ênfase em valores e símbolos, trabalhando a cosmogonia, os rituais, o sincretismo e a ética espiritual do Candomblé.

EF69LP08 / EF69LP09 (Língua Portuguesa)

A análise da música "Axé no Terreiro" desenvolve a habilidade de interpretar textos poéticos com função cultural e simbólica, que mesclam metáfora, mitologia e pedagogia ancestral.

4.3 Ferramenta Didática Central: A Música "Axé no Terreiro"

A música é uma poderosa ferramenta pedagógica para introduzir a complexidade e a beleza do Candomblé. A canção "Axé no Terreiro" foi elaborada para servir como fio condutor das atividades, traduzindo conceitos complexos em uma linguagem poética e acessível.

Letra da Música: "Axé no Terreiro"

(Ritmo: Maracatu com toques de ijexá e coros iorubás)

Verso 1 (A Criação): "Olodumare no céu teceu a luz, No ventre de Nanã nasceu o barro e a cruz. Oxalá vestiu branco, moldou o humano, No sopro do mundo, o axé foi o arcano. Yemanjá, rainha do mar e dorinha, Deu sal às lágrimas, calma à maré bravinha. Ogum com sua espada abriu a floresta, Xangô com seu machado, o trovão que firma a testa!"

Refrão: "Ê, axé! Ê, axé! No atabaque o sagrado bate pé. Ê, axé! Ê, axé! Candomblé é raiz, é chão, é fé!"

Verso 2 (Os Orixás Guerreiros): "Oxóssi flecha o arco na mata fechada, Caçador de esperanças, Erê na madrugada. Iansã gira o vento, roupa cor de guerreira, No fogo da espada, ela é paixão fronteira. Obaluaiê cura com folha de mariô, Omulu na terra, o sol e o sudário. Ewá na cachoeira, segredo na fonte, Oxum no ouro e no amor, protege o ventre que é seu monte."

Ponte (Os Princípios): "Respeito ao mais velho, a folha sagrada, O sangue do animal não é morte, é dádiva. Ebó no assentamento, firmeza no jogo de búzios, Quem tem santo no peito não teme o próprio vazio."

Verso 3 (A Resistência): "Na senzala escondido, o alujá dançou, Na capa do catolicismo, o Orixá se camuflou. Mãe Menininha do Gantois segurou a tradição, Filha de Oxum, enfrentou a perseguição. Hoje o terreiro é escola, altar e quilombo, A diáspora negra reescreve o seu assombro."

Verso 4 (A Celebração): "Na roda de Xangô, o corpo é oração, Pé no chão batido, voz na exaltação. O povo de santo gira, o transe é vereda, Orixá incorpora, a alma se faz inteira. Ogã na batida, a ekede no ilú, O canto dos antigos ecoa: «Òrun aiye, o mundo é um só!»"

Refrão Final: "Ê, axé! Ê, axé! No atabaque o sagrado bate pé. Ê, axé! Ê, axé! Candomblé é memória, é futuro, é pé no chão de pé!"

Análise Verso a Verso

  • Verso 1 – A Criação: Este verso introduz a cosmogonia do Candomblé, apresentando Olodumare como o princípio criador supremo e Oxalá como o Orixá responsável por moldar a humanidade. Yemanjá, Ogum e Xangô são introduzidos como forças primordiais da natureza.
  • Refrão: Celebra o axé como a força vital que move o mundo e destaca o atabaque não apenas como um instrumento, mas como um condutor espiritual que conecta o material e o sagrado.
  • Verso 2 – Os Orixás Guerreiros: Apresenta um panteão de Orixás e seus domínios simbólicos: Oxóssi (matas), Iansã (ventos e tempestades), Obaluaiê (cura) e Oxum (águas doces e amor). Mostra como cada divindade reflete aspectos da vida, da natureza e da alma humana.
  • Ponte – Os Princípios: Sintetiza os fundamentos éticos e rituais da religião: o respeito à ancestralidade ("respeito ao mais velho"), a sacralidade da natureza ("a folha sagrada") e a importância das oferendas (ebós) e do oráculo (jogo de búzios).
  • Verso 3 – A Resistência: Narra a história de perseguição e sobrevivência, destacando o sincretismo como estratégia de proteção e reverenciando Mãe Menininha do Gantois como um símbolo da preservação e dignidade do culto.
  • Verso 4 – A Celebração: Descreve o ritual como um ato de celebração e conexão espiritual, onde o corpo, a dança e o canto são formas de oração. O transe é apresentado como um canal de comunicação com o divino, sustentado por figuras importantes como o Ogã e a Ekede.

4.4 Plano de Atividades Sugeridas

As atividades a seguir podem ser adaptadas conforme a turma e o tempo disponível, utilizando a música como ponto de partida.

  1. Atividades de Discussão e Reflexão: Estas atividades visam fomentar o pensamento crítico, a empatia histórica e a expressão pessoal dos estudantes.
    • Debate sobre sincretismo: Iniciar um debate com a pergunta: "Por que os orixás foram associados a santos católicos?". Explorar as noções de resistência, estratégia e preservação cultural.
    • Discussão sobre diversidade religiosa: A partir da análise da música e da história de perseguição, promover uma conversa sobre a importância do respeito às diferentes crenças e o combate à intolerância.
    • Roda de leitura e debate: Realizar a atividade de redação coletiva com o tema “O que é axé para mim?” e, em seguida, promover uma roda de leitura para compartilhar as reflexões e percepções dos alunos.
  2. Atividades Criativas e Visuais: Os exercícios a seguir incentivam a expressão artística e a alfabetização simbólica, traduzindo conceitos em imagens.
    • Painel dos Orixás: Dividir a turma em grupos para criar um grande painel visual com os Orixás mencionados na música, ilustrando seus domínios na natureza, suas cores e seus atributos simbólicos.
    • Oficina de símbolos: Propor que os alunos desenhem as insígnias (símbolos) de alguns Orixás, como a espada de Ogum, o espelho de Oxum (abebé), o arco e flecha de Oxóssi (ofá), e expliquem seus significados.
  3. Atividades de Pesquisa e Sistematização: As propostas abaixo promovem a autonomia na pesquisa e a capacidade de conectar o tema a diferentes áreas do conhecimento.
    • Linha do tempo da resistência: Orientar os alunos a montar uma linha do tempo com figuras marcantes na história do Candomblé, como Mãe Menininha do Gantois e Mãe Stella de Oxóssi, destacando suas contribuições para a preservação e valorização da religião.
    • Pesquisa interdisciplinar: Propor pesquisas que conectem o tema a outras áreas do conhecimento, como: a perseguição aos terreiros durante a Era Vargas (História) ou o uso de plantas medicinais e sagradas no Candomblé (Biologia/Ciências).
  4. Atividade Musical e Corporal: Esta oficina busca engajar os alunos por meio da experiência corporal e rítmica, conectando-os a um dos pilares da cultura do Candomblé.
    • Oficina de ritmo: Realizar uma oficina de música para simular o ritmo do atabaque usando palmas, mesas ou instrumentos escolares. Explicar a importância de ritmos como o ijexá como linguagem de comunicação com os Orixás nos rituais.

Para aprofundar ainda mais o tema, uma lista de materiais de apoio é fornecida a seguir.

5.0 Recursos Complementares para Aprofundamento

Os recursos listados abaixo servem para enriquecer o planejamento das aulas e aprofundar o conhecimento de professores e alunos sobre a riqueza e a complexidade do universo do Candomblé, oferecendo diferentes linguagens e abordagens sobre o tema.

Livros

  • "Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo", de Pierre Fatumbi Verger.
  • "Candomblé: Religião do Corpo e da Alma", de Reginaldo Prandi.

Filmes/Documentários

  • "Òrun Àiyé: A Criação do Mundo" (2020, animação sobre mitologia iorubá).
  • "Mãe Stella: 60 Anos de Iniciação" (2019).

Sites

  • Acervo digital do Ilê Axé Opô Afonjá: opoaforja.org.br.

6.0 Conclusão: Por uma Educação Antirracista e Plural

Educador(a), esta proposta é um convite para transformar a sala de aula em um espaço de reconhecimento, respeito e valorização da diversidade que constitui o Brasil. Ao trazer o Candomblé para o centro do debate pedagógico, não estamos apenas ensinando sobre uma religião, mas desconstruindo preconceitos seculares, combatendo o racismo religioso e valorizando a imensa herança da cultura afro-brasileira.

O estudo do Candomblé revela suas profundas contribuições para a música, a dança, a culinária, a língua e a medicina tradicional, reforçando seu papel central na formação da nossa identidade nacional. Adotar esta pauta é um ato pedagógico e político que afirma o compromisso da escola com uma educação verdadeiramente inclusiva, crítica e cidadã.

Como um lembrete do poder transformador contido nesta tradição, encerramos com uma reflexão:

"O terreiro não é só um lugar: é a memória viva de um povo que transformou dor em axé. Cada tambor, cada canto, é um ato de resistência."