A Revolta do Búzios
Notas Didáticas — análise verso a verso + sugestões
Refrão
(“Búzios em voz alta…”)
- Ideia central: voz coletiva
popular negra e parda; demandas de pão/direitos; “panfleto é tambor” =
palavra que convoca.
- Atividade: construir um
“panfleto-manifesto” da turma (tema atual) com métrica simples.
Verso 1
(“vela acesa no papel…”)
- Metáfora: costura de ideias;
ofício do alfaiate como alfabetização política.
- Atividade: mapa de ofícios
urbanos em Salvador no séc. XVIII (interdisciplinar com Geografia).
Pré-refrão
(“rua é sala de aula…”)
- Conceito: pedagogia de praça;
cidade como espaço educativo.
- Atividade: passeio didático
pelo bairro (observação de anúncios, cartazes, slogans).
Verso 2
(“soldado mal pago…”)
- Temas: desigualdade
salarial, circulação atlântica de ideias.
- Atividade: linha do tempo
“ideias em trânsito” (França, Caribe, Bahia).
Ponte
(nomes dos conjurados)
- Conteúdo factual: martírio
de homens negros.
- Atividade: minibiografias
dos quatro; pesquisa guiada + produção de quadrinho em 4 quadros.
Verso 3
(“prenderam a voz, ficou o coral…”)
- Sentido: memória coletiva;
escola como lugar de continuidade.
- Atividade: coro falado; cada
grupo declama um verso e explica o significado.
Sugestões
pedagógicas (BNCC alinhável):
- Produção textual (LP):
panfleto-manifesto e análise de slogans.
- História: escravidão, mundo
atlântico, revoltas urbanas coloniais.
- Artes: música e ritmo;
criação de batida simples com objetos da sala.
- Sociologia: raça, classe,
cidadania.
- Avaliação: participação,
clareza do panfleto, conexão entre letra e fatos históricos.
História (EF – Anos Finais)
- EF08HI01 – Iluminismo e liberalismo:
identificar ideias e relacioná-las ao mundo contemporâneo (leitura
comentada de panfletos e slogans).
- EF08HI04 – Revolução Francesa e
desdobramentos: comparar consignas e ecos atlânticos no caso baiano.
- EF08HI05 – Rebeliões na América
portuguesa (conjurações mineira e baiana): situar Búzios como programa
popular urbano (república, antiescravismo, preço do pão).
- EF07HI11–EF07HI13 – Mapas históricos,
população e lógicas mercantis: croqui de Salvador (locais de
panfletagem/mercado/quartel) + leitura de fontes sobre trabalho urbano e
redes atlânticas. basenacionalcomum.mec.gov.br
Como
evidenciar: dossiê
de fontes (panfletos anotados), linha do tempo 1798–1799, croqui com legenda,
minibiografias (Lucas, Gonzaga, João, Manuel).
Língua Portuguesa (EF)
- EF89LP14 – Analisar movimentos
argumentativos (sustentação, refutação, negociação) em textos
argumentativos: desmontar a retórica dos panfletos e preparar debate
regrado. basenacionalcomum.mec.gov.br
- EF69LP18 – Escrever/reescrever
textos argumentativos com operadores e coesão: produção do panfleto-manifesto
da turma (rascunho → revisão). basenacionalcomum.mec.gov.br
- EF67LP28 – Ler com estratégias
adequadas a gêneros/suportes: leitura orientada de cordel/crônica sobre
revoltas. basenacionalcomum.mec.gov.br
- EF15LP01 (adaptação para anos
iniciais, se usar trechos) – Identificar função social de textos que
circulam na comunidade (panfleto, notícia). basenacionalcomum.mec.gov.br
Geografia (EF)
- EF06GE08 – Medir distâncias por
escala gráfica/numérica: medir percursos entre mercado, quartel e praça no
croqui da cidade. basenacionalcomum.mec.gov.br
- EF08GE01 – Conceituar
Estado/nação/território/governo/país: discutir “República” nos panfletos e
a organização do território luso-brasileiro. basenacionalcomum.mec.gov.br
- EF08GE23 – Identificar paisagens da
América Latina e associá-las a povos pela cartografia: localizar Salvador
colonial e relacionar morfologia urbana a atores sociais. basenacionalcomum.mec.gov.br
Evidências e Avaliação
(exemplos)
- Dossiê de fontes (HI + LP): análise dos
panfletos com marcações de tese/argumentos (EF08HI01, EF89LP14).
- Panfleto-manifesto (LP): versão final com
checklist de operadores e coesão (EF69LP18).
- Croqui comentado (HI + GE): pontos, escala e
legenda (EF07HI11, EF06GE08, EF08GE23).
- Debate regrado (LP): uso de operadores
argumentativos e réplica (EF89LP14).
Ensino Médio (EM – Ciências
Humanas e Sociais Aplicadas)
- EM13CHS103 – Elaborar hipóteses,
selecionar evidências e compor argumentos sobre processos
políticos/sociais, com base em fontes variadas: seminário com tese (“Por
que a Revolta do Búzios formula um programa republicano popular e
antiescravista?”) e defesa com documentos (mapas, panfletos, biografias). alex.pro.brbasenacionalcomum.mec.gov.br
Guia de
Estudos: A Revolta dos Búzios – Vozes da Bahia, 1798
Quiz (10
perguntas de resposta curta)
- Quem foram os principais
grupos sociais que compunham a Revolta dos Búzios e o que os unia? A Revolta dos Búzios foi
composta por artesãos (especialmente alfaiates), soldados rasos, negros
livres e escravizados, e mulatos. Eles eram unidos pela busca por
liberdade, igualdade, o fim da escravidão e o fim da fome.
- Qual o significado simbólico
do “sobrenome” Búzios, mencionado na biografia coletiva? O “sobrenome” Búzios
refere-se aos búzios usados em chapéus e adornos. Simbolicamente, ele
representa a estética e a identidade visual de parte dos envolvidos, mas
também a alma da revolta feita de panfletos clandestinos e conversas
noturnas.
- De que forma a Revolta dos
Búzios difere de "conspirações estritamente letradas" em sua
pedagogia? A
Revolta dos Búzios tinha uma "pedagogia de praça", traduzindo
conceitos iluministas em reivindicações concretas do cotidiano, como
salário justo e preço do pão. Isso a diferenciava de movimentos que
focavam mais na discussão teórica e menos na mobilização popular prática.
- Quais foram as principais
demandas concretas apresentadas nos panfletos da Revolta dos Búzios? As principais demandas
concretas incluíam a República, o fim da escravidão, salário digno,
redução do preço dos alimentos e abertura de oportunidades para a
população subalternizada.
- Nomeie os quatro conjurados
que foram executados e explique o impacto de seus martírios. Lucas Dantas de Amorim
Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, João de Deus do Nascimento e
Manuel Faustino dos Santos Lira foram executados. Embora o poder colonial
os usasse como advertência, seus martírios se tornaram, a longo prazo,
símbolos de memória pedagógica e da luta por igualdade social.
- Qual o saldo histórico de
longo prazo da Revolta dos Búzios, apesar de sua derrota imediata? A Revolta dos Búzios
inaugurou no Brasil um programa republicano com um forte eixo social e
antiescravista, formulado por sujeitos subalternizados. Ela levantou
questões de pão, salário e cidadania para a população negra, temas não
resolvidos pela Independência formal.
- De que maneira a música
"Búzios em Voz Alta" busca ser uma ferramenta pedagógica,
conforme as Notas Didáticas? A música utiliza linguagem simples, slogans e
imagens de panfletos para transmitir a ideia central da voz coletiva
popular negra e parda e suas demandas. As notas didáticas sugerem
atividades como a criação de panfletos-manifestos e mapas de ofícios,
conectando a música à prática educativa.
- Explique o conceito de
"pedagogia de praça" presente na Revolta dos Búzios, conforme as
notas da música. A
"pedagogia de praça" é a ideia de que a rua e os espaços
públicos se tornam ambientes de aprendizado e mobilização. A cidade é
vista como um espaço educativo onde as ideias circulam, são traduzidas em
demandas cotidianas e provocam a ação coletiva.
- Como a Revolta dos Búzios se
conecta a outras lutas históricas no Brasil e qual sua importância para a
memória? A
Revolta dos Búzios serve como uma ponte didática entre as lutas de
Palmares (resistência escrava), as revoltas urbanas do período colonial e
os projetos populares de república no século XIX. Ela mantém viva a
memória da busca por igualdade e liberdade por parte da população negra e
popular.
- Quais são algumas das
disciplinas escolares com as quais a Revolta dos Búzios pode ser estudada
de forma interdisciplinar, segundo o texto? A Revolta dos Búzios pode
ser estudada de forma interdisciplinar com História (colonialismo,
escravidão), Geografia (portos, rotas, urbanização), Língua Portuguesa
(análise de panfletos, produção textual), Sociologia (classes, raça) e
Artes (música, poesia).
Sugestões
de Perguntas em Formato de Ensaio
- Analise como a Revolta dos
Búzios, embora um evento localizado na Bahia do século XVIII, reflete e se
conecta a tendências e ideias mais amplas do "mundo atlântico"
da época, como a Revolução Francesa e as revoltas no Caribe.
- Discorra sobre o papel da
população negra e parda na Revolta dos Búzios, explicando como o movimento
articulou demandas sociais e antiescravistas que não foram plenamente
contempladas pela Independência do Brasil em 1822.
- Examine a "pedagogia de
praça" da Revolta dos Búzios e a importância dos panfletos e da
circulação oral de ideias na mobilização e formação da consciência
política popular. Como esses elementos a distinguem de outras
insurgências?
- Avalie a relevância da
Revolta dos Búzios para a construção da memória histórica e da identidade
nacional brasileira, considerando como ela é lembrada e ressignificada na contemporaneidade,
inclusive por meio de manifestações culturais e educativas.
- Compare a biografia
simbólica da Revolta dos Búzios como "personagem coletivo" com
as biografias individuais dos quatro conjurados executados. Discuta como a
memória desses indivíduos se entrelaça com o legado do movimento maior.
Glossário
de Termos-Chave
- A Revolta dos Búzios (ou
Conjuração Baiana/Revolta dos Alfaiates): Movimento popular ocorrido
em Salvador, Bahia, em 1798, caracterizado por demandas republicanas,
antiescravistas e sociais.
- Personagem Coletivo: Conceito usado para
descrever a Revolta dos Búzios como um agente histórico formado por
diversos grupos sociais (artesãos, soldados, negros livres e escravizados,
mulatos) unidos por objetivos comuns.
- Artesãos (especialmente
Alfaiates):
Grupo social de destaque na Revolta, muitas vezes associado à
"costura de ideias" e à elaboração e disseminação dos panfletos.
- Negros Livres e
Escravizados/Mulatos: Base social majoritária da Revolta, com suas
experiências de desigualdade e opressão impulsionando as demandas por
liberdade e igualdade.
- Panfletos Clandestinos: Documentos manuscritos e
impressos que circulavam clandestinamente, colados em paredes e espalhados
nas ruas, veiculando as ideias e convocações da Revolta.
- Pedagogia de Praça: Conceito que descreve a
forma como a Revolta dos Búzios transformava conceitos iluministas em
reivindicações concretas do cotidiano, usando a cidade e seus espaços
públicos como "sala de aula" e local de mobilização.
- República: Uma das principais demandas
políticas do movimento, que visava a substituição do regime colonial
monárquico por um governo republicano.
- Antiescravismo: Oposição e luta pelo fim da
escravidão, uma pauta central e revolucionária para a época no Brasil.
- Desigualdade Social e
Racial: O
cenário de opressão e exclusão que serviu de pano de fundo para a Revolta,
caracterizado pelo sistema escravista, carestia e falta de oportunidades
para a população negra e popular.
- Mundo Atlântico: Termo que se refere à rede
de trocas culturais, econômicas e políticas entre a Europa, África e
Américas nos séculos XVIII e XIX, por onde circulavam ideias como as do
Iluminismo e os ecos de revoluções.
- Lucas Dantas de Amorim
Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, João de Deus do Nascimento e
Manuel Faustino dos Santos Lira: Quatro conjurados negros que foram
exemplarmente executados por enforcamento, tornando-se mártires da causa.
- Martírio em Memória
Pedagógica: A
transformação da punição e execução dos líderes em um símbolo duradouro de
resistência e lição histórica sobre a busca por igualdade social.
- BNCC (Base Nacional Comum
Curricular):
Documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais que
todos os alunos devem desenvolver na educação básica brasileira. As notas
didáticas sugerem como o estudo da Revolta dos Búzios pode se alinhar à
BNCC.
- Coro Falado: Atividade pedagógica
sugerida para o estudo da Revolta, onde grupos declamam versos e explicam
seus significados, reforçando a ideia da "voz coletiva".
LINHA DO TEMPO DA REVOLTA DOS BÚZIOS (1798-1799)
- Esta linha do tempo detalha
os principais eventos da Revolta dos Búzios, também conhecida como
Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, conforme as fontes fornecidas.
- Contexto Prévio (Final do
Século XVIII):
- Situação Social e Econômica
em Salvador:
Grande desigualdade social e racial. O sistema escravista era o pilar da
economia açucareira e do comércio. Alta carestia e desemprego afetavam a
população.
- Influências Externas: O "mundo
atlântico" era impactado pelos ecos da Revolução Francesa e de
revoltas no Caribe. Ideias de liberdade e igualdade circulavam amplamente
através de navios, portos e documentos.
- Articulação Inicial na
Bahia:
Artesãos (especialmente alfaiates), soldados rasos, negros livres e
escravizados, mulatos e pessoas de diversas origens populares em Salvador
começam a se articular. Lojas de ofício, quartéis, tabernas e mercados tornam-se
centros de sociabilidade e difusão de ideias.
- 1798:
- Circulação de Panfletos: Panfletos manuscritos,
clandestinos, são colados em paredes e espalhados pelas ruas de Salvador.
Estes documentos explicitam as demandas do movimento:
- República.
- Fim da escravidão.
- Salário digno.
- Redução do preço dos
alimentos.
- Abertura de oportunidades
(cidadania para a população negra).
- Agosto de 1798 -
Intensificação das Ações: Panfletos conclamam o povo às ruas. O
movimento se organiza e ganha corpo, tornando-se publicamente conhecido.
- É designado como Conjuração
Baiana, Revolta do Búzios ou Revolta dos Alfaiates.
- 1799:
- Repressão e Desarticulação: A Coroa reage rapidamente.
Investigações intensas, delações e prisões desmantelam o núcleo mais ativo
da revolta.
- Punição Exemplar e
Execuções:
Quatro conjurados são condenados e executados por enforcamento em
Salvador.
- Lucas Dantas de Amorim
Torres
(negro)
- Luís Gonzaga das Virgens e
Veiga
(negro)
- João de Deus do Nascimento (negro)
- Manuel Faustino dos Santos
Lira
(negro)
- Seus corpos e nomes são
usados como advertência pelo poder colonial, mas, a longo prazo, tornam-se
símbolos de martírio popular e da luta pela igualdade.
- Pós-Revolta (Impacto e
Memória):
- Legado Histórico: A Revolta dos Búzios é
reconhecida como o programa republicano com eixo social e antiescravista
inaugural no Brasil, formulado por sujeitos subalternizados. Abordou
questões de salário, pão e cidadania para a população negra, temas não
resolvidos pela Independência formal de 1822.
- Ponte Didática: Serve como conexão entre as
lutas de Palmares, as revoltas urbanas coloniais e os projetos populares
de república no século XIX.
- Presença na Memória Atual: A Revolta do Búzios
persiste na toponímia, em monumentos, livros didáticos, slams de periferia
e blocos afro, com seu coração batendo ao compasso dos tambores, ensinando
e inspirando.
- Elenco de Personagens da
Revolta dos Búzios
- Este elenco de personagens
lista as figuras principais e o "personagem coletivo" da Revolta
dos Búzios, com breves biografias baseadas nas fontes fornecidas.
- Personagens Coletivos:
- A Revolta do Búzios
(Personagem Coletivo): Representa o conjunto de artesãos, alfaiates,
soldados rasos, negros livres e escravizados, mulatos, gente da rua do
comércio e da marinha de Salvador no final do século XVIII. Seu
"sobrenome" vem dos búzios usados em chapéus, mas sua essência é
feita de panfletos clandestinos e conversas noturnas. Sua
"família" é ampla e inclui homens negros e pardos que costuravam
roupas e ideias, aprendizes, quitandeiras, marinheiros e soldados. Seu
temperamento é "atrevido e didático", traduzindo ideias
revolucionárias em demandas concretas como salário justo, república,
escola e preço do pão acessível. Ela fala como um coro, através dos nomes
dos principais conjurados e da população.
- Personagens Individuais
(Mártires da Revolta):
- Lucas Dantas de Amorim
Torres: Um
dos quatro conjurados, homem negro, que foi executado por enforcamento em
Salvador em 1799. Seu nome é lembrado como um símbolo do martírio popular
e da luta pela República e igualdade.
- Luís Gonzaga das Virgens e
Veiga:
Outro dos quatro conjurados, homem negro, executado por enforcamento em
1799. Sua memória persiste como parte do legado da Revolta dos Búzios.
- João de Deus do Nascimento: Um dos líderes da Revolta,
homem negro, que também foi executado por enforcamento em 1799. Seu nome é
citado como um dos que "abrem caminho no peito do Brasil" na
busca por liberdade e igualdade.
- Manuel Faustino dos Santos
Lira: O
quarto dos conjurados, homem negro, executado por enforcamento em 1799.
Juntamente com os outros três, ele representa o "martírio
popular" e a lição de que a igualdade social não cabia no regime
colonial.
Plano de Aula Interdisciplinar: A Revolta dos Búzios e a Luta por Cidadania no Brasil
1. Identificação
Campo | Conteúdo |
Título | Plano de Aula Interdisciplinar: A Revolta dos Búzios e a Luta por Cidadania no Brasil |
Nível de Ensino | Ensino Médio |
Disciplinas Envolvidas | História, Sociologia, Geografia e Língua Portuguesa |
Duração Estimada | 4 aulas de 50 minutos |
Tema Transversal | Cidadania, Direitos Humanos, Relações Étnico-Raciais |
2. Justificativa e Relevância
Estudar a Revolta dos Búzios no Ensino Médio é uma escolha estratégica para desvelar as raízes históricas das desigualdades sociais e raciais que marcam o Brasil. Ao mergulhar nos eventos de 1798 em Salvador, os estudantes entram em contato com um "personagem coletivo" — formado por artesãos, soldados e negros livres e escravizados — que formulou um dos mais ousados projetos de república para o país: popular, antiescravista e radicalmente igualitário. A análise desta conjuração transforma o martírio de seus líderes em uma potente "memória pedagógica", demonstrando como pautas como salário justo, igualdade de oportunidades e cidadania plena, que ecoam nos debates contemporâneos, já eram defendidas por sujeitos subalternizados no final do período colonial. O estudo da Revolta dos Búzios, portanto, não é apenas um resgate do passado, mas uma ferramenta essencial para a formação de uma consciência cidadã crítica e atuante no presente.
3. Objetivos de Aprendizagem (Alinhados à BNCC)
- Analisar o contexto histórico, social e político da Revolta dos Búzios, identificando suas conexões com o Iluminismo, a Revolução Francesa e outras revoltas no mundo atlântico.
- Identificar os diferentes agentes sociais envolvidos na conjuração (alfaiates, soldados, negros livres e escravizados) e suas reivindicações por direitos, pão e república, contrastando-a com outras conjurações do período colonial.
- Elaborar hipóteses e compor argumentos sobre o caráter popular e antiescravista da revolta, utilizando fontes históricas variadas como panfletos, mapas e biografias, conforme a competência EM13CHS103.
- Produzir textos argumentativos (manifestos) que articulem demandas do presente, aplicando estratégias de sustentação e coesão textual inspiradas na análise dos panfletos de 1798, em alinhamento com as competências de Linguagens e suas Tecnologias (ex: EM13LP01, EM13LP05).
- Interpretar a cidade de Salvador como um espaço geográfico de articulação e conflito político, relacionando sua morfologia urbana (portos, quartéis, praças) aos atores e eventos da revolta, em alinhamento com as competências de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (ex: EM13CHS101, EM13CHS201).
4. Sequência Didática Detalhada
Etapa 1: Sensibilização – "Búzios em Voz Alta" (1 aula)
O objetivo desta etapa inicial é engajar os estudantes de forma sensível e criativa, ativando seus conhecimentos prévios sobre revoltas, direitos e protagonismo negro. A música "Búzios em Voz Alta" funciona como um documento histórico acessível, introduzindo os temas, os atores e a linguagem da conjuração de 1798 de maneira impactante.
- Atividade 1 - Audição e Análise: Execute a música "Búzios em Voz Alta". Em seguida, distribua a letra e promova uma discussão inicial com base nas seguintes questões: Quais palavras ou ideias mais chamaram a atenção? Quem são as pessoas mencionadas na música? Que tipo de "luta" a letra descreve?
- Atividade 2 - Decodificação do Refrão: Em grupos, peça aos alunos que analisem especificamente o refrão: "Búzios em voz alta, Bahia, 1798, / negro e mulato pedem pão e direitos. / República no peito, igualdade na mão, / panfleto é tambor que sacode o chão." Instrua-os a "traduzir" o significado de cada verso, especialmente a metáfora "panfleto é tambor", que associa a palavra escrita à convocação e ao ritmo da luta. Finalize socializando as interpretações de cada grupo.
- Transição: Conclua a aula afirmando que, após ouvir a "voz" da revolta através da música, a próxima etapa será investigar o contexto histórico que deu origem a essas reivindicações.
Etapa 2: Aprofundamento Histórico e Geográfico (1 aula)
Esta etapa visa contextualizar a revolta no tempo e no espaço, conectando o cenário de Salvador no século XVIII às ideias revolucionárias que circulavam no mundo atlântico. O objetivo é que os alunos compreendam como as ideias revolucionárias que cruzavam o Atlântico eram desembarcadas no porto de Salvador e ressignificadas nas ruas, transformando-se em um projeto político concreto.
- Atividade 1 - Exposição Dialogada: Apresente o contexto histórico da Revolta dos Búzios. Utilize as informações da seção "História" do texto-base para explicar: a profunda desigualdade social e racial em Salvador, a crise de abastecimento e a carestia, a influência da Revolução Francesa e das revoltas de escravizados no Caribe (como no Haiti), e a circulação de ideias iluministas que chegavam pelos portos.
- Atividade 2 - Mapa das Ideias e Ações: Proponha a criação de um "croqui comentado" de Salvador em 1798. Em grupos, os alunos devem identificar e legendar locais simbólicos mencionados ou sugeridos no texto-base: o porto (ponto de chegada de ideias e notícias), as lojas de ofício dos alfaiates (espaços de articulação), os quartéis (local de insatisfação dos soldados), e as praças e mercados (locais de sociabilidade popular e de afixação dos panfletos). Esta atividade integra História e Geografia, materializando o movimento no espaço urbano.
- Transição: Termine a aula destacando que as ideias que chegaram pelo porto e circularam pela cidade precisavam de um meio para se espalhar e convocar o povo. A próxima etapa focará no principal veículo de comunicação da revolta: os panfletos.
Etapa 3: Análise Sociológica e Linguística dos Panfletos (1 aula)
O foco agora é analisar a genialidade da comunicação da revolta: sua capacidade de traduzir os ideais abstratos do Iluminismo — "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" — em demandas concretas e urgentes para o povo de Salvador: "pão, salário digno, fim da escravidão". A análise dos panfletos permite explorar as dimensões sociológicas (quem fala e para quem) e linguísticas (como se argumenta) do movimento, conectando Sociologia e Língua Portuguesa.
- Atividade 1 - Leitura e Análise de Fontes: Apresente aos alunos trechos dos panfletos (conforme descrito no texto-base) que pediam "República, fim da escravidão, salário digno, redução do preço dos alimentos". Conduza uma análise coletiva, identificando a tese central, os argumentos utilizados e o público-alvo. Discuta por que essas demandas eram tão revolucionárias para a sociedade colonial e escravista da época.
- Atividade 2 - Oficina de Manifesto: Inspirados pela análise, os alunos, em grupos, criarão um "panfleto-manifesto da turma". Eles devem escolher um tema social atual relevante para a comunidade escolar ou local (ex: acesso à cultura, melhorias no transporte, combate ao racismo) e redigir um texto curto e impactante, utilizando slogans e argumentos diretos, assim como os conjurados de 1798.
- Transição: Conclua enfatizando que por trás desses panfletos anônimos havia pessoas com nomes, ofícios e histórias de vida. A etapa final será dedicada a conhecer os protagonistas da revolta e refletir sobre seu legado.
Etapa 4: Protagonismo Negro e Avaliação (1 aula)
Esta etapa final tem o duplo objetivo de dar rosto e voz aos líderes da revolta, reconhecendo o protagonismo negro na formulação de um projeto de Brasil, e de consolidar a aprendizagem por meio de uma avaliação formativa e integradora. A culminância do projeto se dá na capacidade dos alunos de argumentar com base nas fontes estudadas.
- Atividade 1 - Biografias dos Mártires: Divida a turma em quatro grupos. Cada grupo ficará responsável por pesquisar e apresentar uma minibiografia de um dos líderes executados: Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira. A apresentação deve destacar sua origem social (homens negros, artesãos, soldados) e seu papel central na articulação da conjuração.
- Atividade 2 - Seminário de Culminância: Organize um seminário com a pergunta central: "Por que a Revolta dos Búzios pode ser considerada um dos primeiros projetos populares e antirracistas de república para o Brasil?" Os grupos devem usar as evidências coletadas ao longo das quatro aulas (a letra da música, o croqui comentado, a análise dos panfletos e as biografias dos líderes) para construir e defender seus argumentos oralmente. Esta atividade exercita diretamente a competência EM13CHS103.
- Transição: Encerre o seminário e o plano de aula reforçando como a memória da Revolta dos Búzios, mantida viva na escola e na sociedade, "costura o Brasil que ainda falta", conectando as lutas do passado aos desafios por cidadania plena no presente.
5. Avaliação da Aprendizagem
A avaliação será realizada de forma processual e contínua, utilizando as produções dos estudantes como evidências da construção do conhecimento.
- Participação Qualificada: Avaliação contínua do engajamento dos alunos nas discussões, observando a capacidade de formular perguntas pertinentes, conectar a letra da música ao contexto histórico apresentado, e oferecer interpretações fundamentadas sobre as fontes (panfletos), em vez de meras opiniões.
- Croqui Comentado (HI + GE): Avaliação da capacidade de representar espacialmente o contexto histórico, identificando corretamente os locais simbólicos da revolta e explicando suas funções na legenda.
- Panfleto-Manifesto (LP + SOC): Análise da clareza, coesão, força argumentativa e criatividade do manifesto produzido, bem como sua conexão crítica com as questões sociais contemporâneas.
- Apresentação no Seminário (HI + SOC): Avaliação da capacidade de elaborar hipóteses, selecionar evidências das fontes trabalhadas e compor uma argumentação oral coesa e bem fundamentada para responder à questão central do seminário. Este será o principal instrumento de avaliação somativa do projeto.
6. Recursos e Materiais Necessários
- Aparelho de som para tocar a música "Búzios em Voz Alta"
- Cópias da letra da música para os alunos
- Projetor multimídia
- Acesso à internet para pesquisa das biografias
- Mapas históricos de Salvador do séc. XVIII (sugestão: acervos da Biblioteca Nacional Digital ou do Arquivo Nacional)
- Trechos digitalizados dos panfletos da revolta, disponíveis em arquivos públicos ou publicações acadêmicas sobre o tema
- Papel, canetas coloridas e materiais de desenho para a produção do croqui comentado e dos panfletos-manifesto
