Notas Didáticas Aqualtune

 



Aqualtune

Análise verso a verso 

(tabela)

 Trecho     Recurso poético     Referência histórico-cultural     Observações didáticas 

“Na serra… Aqualtune” Anáfora, imagem Serra da Barriga / Palmares, século XVII Situar geografia e tempo logo no início.

 “mão que amarra o medo…” Metáfora Liderança feminina negra e comunitária Debater liderança de mulheres em Palmares.

 “de Kongo a Serra…” Metonímia, travessia África Central → Brasil (diáspora) Trabalhar mapa Atlântico; evitar generalizações.

 “Ergue a paliçada…” Imagem concreta Defesas dos mocambos Discutir tecnologia e organização quilombola. 

“Gente dispersa vira povo” Antítese → coesão Formação de comunidade em Palmares Relacionar a migrações forçadas.

 “quando o tambor avisa” Símbolo sonoro Comunicação/ritmo afro-atlântico Atividade: criação de toques/sinais. 

“Dizem princesa, dizem mito” Paralelismo Mito vs documento (Mbwila) Alfabetização histórica: o que é prova? 

“na Capitania de Pernambuco” Topônimo histórico Localização colonial Ler mapas, comparar nomes antigos/atuais. 

Notas didáticas (BNCC) + atividades


 Público-alvo sugerido: 7º–9º ano (adaptação possível para EM). 

Objetivos de aprendizagem (exemplos):

 • Identificar e localizar Palmares (Serra da Barriga, AL) no século XVII e explicar a ideia de confederação de mocambos. 

• Distinguir tradição oral de documentos sobre Aqualtune, compreendendo o papel do mito na memória negra. 

• Analisar a letra e relacioná-la ao contexto histórico de resistência quilombola. 

• Produzir um mapa conceitual sobre liderança feminina negra na história do Brasil. 

BNCC (sugestões a ajustar pela equipe): 

• História: EF08HI06, EF09HI02, EF09HI09 (quilombos, movimentos negros, memória). 

• Arte: EF69AR24 (criação/ressignificação cultural). 

• Língua Portuguesa: EF69LP24, EF89LP33 (leitura de textos poéticos e produção de resenhas). 

• Lei 10.639/2003: História e cultura afro-brasileira e africana. Atividades: 

• Explorar — Linha do tempo viva: alunos/as recebem cartões (“documento”, “tradição”, “memória”) e posicionam fatos/frases sobre Aqualtune. 

• Aprofundar — Leitura orientada da letra + mapa da África Central → Palmares; debate “o que é prova?”. 

• Criar e compartilhar — Cordel ou vídeo curto: “Carta do mocambo de Aqualtune”, citando raça, época e localização. 




 Guia de Estudo: Aqualtune e Palmares 


Questões de Revisão (10 perguntas de resposta curta) 

Responda cada pergunta em 2-3 frases. 

1. Quem foi Aqualtune e qual sua principal ligação com o Quilombo dos Palmares? 

2. Por que a figura de Aqualtune é considerada uma matriarca estrategista em Palmares? 

3. Qual é a principal diferença entre o que os documentos históricos afirmam sobre Aqualtune e a tradição oral popular? 

4. Como o texto descreve a vida cotidiana no mocambo de Aqualtune e quais eram as responsabilidades de uma chefia como a dela? 

5. Qual a importância da linhagem familiar de Aqualtune para a liderança de Palmares? 

6. O que significa a Confederação Palmarina e como o mocambo de Aqualtune se inseria nela? 

7. Por que o mito da “princesa do Kongo” é questionado pela crítica histórica, mas ainda assim é considerado importante? 

8. De que forma a presença de mulheres em posições de liderança em Palmares se alinha com práticas centro-africanas? 

9. Como a música “Mocambo de Aqualtune” busca situar geograficamente e temporalmente a história de Aqualtune? 

10. Segundo as "Notas didáticas", qual a importância de discutir a história de Aqualtune para o ensino contemporâneo, especialmente em relação à Lei 10.639/2003? 

Gabarito (Questões de Revisão) 

1. Aqualtune foi uma mulher negra de grande liderança no século XVII, associada ao Quilombo dos Palmares. Ela chefiava um dos principais mocambos da confederação, demonstrando autoridade e capacidade de organização comunitária e militar. 

2. Aqualtune é vista como uma matriarca estrategista por sua habilidade em dar direção a pessoas dispersas pela violência colonial. Ela combinava disciplina de guerra com cuidado comunitário, administrando o mocambo, acolhendo recém-chegados e tecendo alianças. 

3. Os documentos históricos confirmam que Aqualtune chefiava um mocambo importante e era mãe de Ganga Zumba e Ganga Zona. A tradição oral, por sua vez, a descreve como uma princesa do Reino do Kongo capturada grávida e organizando uma fuga, elementos que a crítica histórica considera anacrônicos. 

4. No cotidiano, Aqualtune circulava entre roçados e paliçadas, arbitrando disputas, acolhendo recém-chegados e gerenciando a defesa do mocambo. Chefias como a dela precisavam distribuir terras, arbitrar conflitos e prevenir ataques, provendo sustento e proteção. 

5. A linhagem familiar de Aqualtune era central para a estrutura política de Palmares, pois ela era mãe de Ganga Zumba, o "rei" de Palmares, e Ganga Zona, e, por extensão, avó de Zumbi. Isso a coloca no cerne da sucessão e autoridade do quilombo. 

6. A Confederação Palmarina era uma rede de aldeamentos (mocambos) com chefias locais e coordenação política. O mocambo de Aqualtune, com cerca de 200 casas e paliçada defensiva, era um dos dez maiores e mais importantes, indicando sua relevância militar e organizativa. 

7. O mito da “princesa do Kongo” é questionado por anacronismos cronológicos e ausência em fontes da época (como a Batalha de Mbwila). Contudo, ele é importante para a memória, pois ajudou a afirmar a dignidade real de uma mulher negra na origem de Palmares e a nobilitar a figura de seus líderes. 

8. A presença de mulheres em posições altas de liderança em Palmares é coerente com práticas centro-africanas, onde o saber de cura, as redes de parentesco e a estratégia de guerra muitas vezes se entrelaçavam sob a autoridade feminina. 

9. A música “Mocambo de Aqualtune” situa geograficamente a história ao mencionar a "Serra da Barriga" e a "Capitania de Pernambuco", e temporalmente ao se referir ao "século dezessete". O refrão também faz a travessia simbólica "De Kongo a Serra da Barriga", conectando sua origem à sua atuação no Brasil. 

10. A discussão sobre Aqualtune é importante para o ensino contemporâneo porque permite abordar temas como gênero, raça, poder e memória.

 Ela também serve como uma excelente ferramenta para a alfabetização histórica, ajudando os estudantes a diferenciar "o que as fontes afirmam" do "que a memória construiu", em conformidade com a Lei 10.639/2003 sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. 

Questões para Ensaio 

Sugira cinco questões para ensaio, sem fornecer as respostas. 

1. Analise como a figura de Aqualtune serve como um ponto de intersecção entre a história documentada e a tradição oral na construção da memória sobre Palmares. Discuta a importância de ambas as perspectivas para a compreensão da identidade e resistência negra no Brasil. 

2. Discorra sobre o papel da liderança feminina em Palmares, utilizando Aqualtune como exemplo. Como suas responsabilidades e a descrição de sua atuação refletem as dinâmicas sociais e políticas de uma confederação de mocambos no século XVII? 

3. Explique como o mito da “princesa do Kongo” relacionado a Aqualtune, apesar de contestado pela historiografia, cumpriu uma função vital na construção da memória e na afirmação da dignidade dos líderes de Palmares. Que lições didáticas podem ser extraídas dessa dualidade entre mito e documento? 

4. A partir da análise da letra da música “Mocambo de Aqualtune” e do material de apoio, discuta como a arte (neste caso, a música) pode ser utilizada como ferramenta pedagógica para o ensino de história. Aborde como os recursos poéticos e as referências históricas-culturais presentes na canção contribuem para a compreensão do tema. 

5. Compare as estratégias de organização e defesa dos mocambos de Palmares, conforme descrito no texto, com outros exemplos de resistência negra ou de povos oprimidos. 

Que paralelos podem ser traçados em termos de governança, proteção e formação de comunidade em face da adversidade colonial? 

Glossário de Termos Chave 

• Aqualtune: Mulher negra de grande liderança no século XVII, associada ao Quilombo dos Palmares, matriarca e chefe de um dos principais mocambos, mãe de Ganga Zumba e Ganga Zona. 

• Quilombo dos Palmares: Vasta confederação de mocambos formados por africanos escravizados fugidos e seus descendentes, localizada na Serra da Barriga (atual Alagoas, então Capitania de Pernambuco) no século XVII, um dos maiores e mais duradouros exemplos de resistência contra a escravidão nas Américas.

 • Mocambo: Termo utilizado no Brasil colonial para designar os assentamentos, aldeamentos ou acampamentos fortificados de pessoas escravizadas fugidas, que se organizavam para viver em liberdade. Palmares era uma confederação de múltiplos mocambos. 

• Serra da Barriga: Localização geográfica do Quilombo dos Palmares, na atual Alagoas. Era uma área estratégica que permitia a organização e defesa da confederação.

 • Ganga Zumba: Filho de Aqualtune e um dos mais importantes líderes de Palmares, considerado o "rei" da confederação antes de Zumbi. • Ganga Zona: Outro filho de Aqualtune, irmão de Ganga Zumba. 

• Zumbi: Neto de Aqualtune, um dos líderes mais emblemáticos de Palmares, conhecido por sua resistência intransigente contra o colonialismo português. 

• Capitania de Pernambuco: Divisão territorial administrativa do Brasil colonial, à qual pertencia a área onde Palmares se desenvolveu no século XVII. 

• Reino do Kongo: Reino africano localizado na África Central, de onde muitos africanos foram trazidos para o Brasil como escravos. A tradição oral associa Aqualtune a uma princesa deste reino.

 • Batalha de Mbwila (1665): Batalha histórica na África Central, mencionada na tradição oral como o local de captura de Aqualtune, embora a crítica histórica conteste sua cronologia em relação ao nascimento de Zumbi. 

• Paliçada: Estrutura defensiva feita de estacas de madeira cravadas no chão, utilizada para proteger os mocambos e outras fortificações em Palmares. 

• Tráfico Transatlântico: Comércio forçado de africanos escravizados através do Oceano Atlântico para as Américas, auge no século XVII, período em que Aqualtune viveu. 

• Cordel: Gênero literário popular e tradicional do Brasil, caracterizado por narrativas em versos rimados, muitas vezes impressas em folhetos e penduradas em cordões para exposição. Jarid Arraes é mencionada como autora de cordéis sobre Aqualtune.

 • Lei 10.639/2003: Lei brasileira que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental e médio. A história de Aqualtune é um tema relevante para sua aplicação.

 • Alfabetização Histórica: Processo que visa desenvolver nos estudantes a capacidade de pensar historicamente, compreendendo conceitos como tempo, causalidade, evidência, e distinguindo entre fontes primárias, tradição oral e interpretação histórica. Linha do Tempo Detalhada de Aqualtune e Palmares Século XVII: 

• Contexto Geral: Auge do tráfico transatlântico de escravizados e da economia açucareira no Brasil colonial. Expedições coloniais intensificam tentativas de destruir Palmares. 

• Localização de Palmares: Vasta confederação de mocambos localizada na Serra da Barriga (atual Alagoas), então parte da Capitania de Pernambuco, no Nordeste do Brasil. 

• Organização de Palmares: Palmares funciona como uma rede de aldeamentos ("mocambos") com chefias locais e coordenação política centralizada. Década de 1650 (aproximadamente): 

• Cenário em Palmares: Zumbi nasce por volta de 1655, sugerindo que Palmares já estava estabelecido e liderado por sua avó, Aqualtune, e pais, Ganga Zumba e Ganga Zona, antes de eventos posteriores como a Batalha de Mbwila. 1665: 

• Batalha de Mbwila: Embora a tradição popular a associe à captura de Aqualtune, a crítica histórica questiona a cronologia e a ausência de seu nome em listas de cativos dessa batalha, indicando que a narrativa da "princesa do Kongo" é mais um mito fundador do que um fato comprovado. 1675-1678: 

• Intensificação das Campanhas Militares: Ataques coloniais contra Palmares se intensificam. 

• Acordo de Paz de Ganga Zumba: Ganga Zumba, o então "rei" de Palmares, firma um acordo de paz com os coloniais. 

• Cisão na Liderança: Este acordo provoca uma divisão interna na liderança de Palmares, com Zumbi se opondo ao pacto. 

• Desaparecimento de Aqualtune dos Registros: Aqualtune desaparece dos registros escritos nesse período, possivelmente vindo a falecer. Seu legado, no entanto, é consolidado como uma mulher negra, chefe e matriarca de uma das experiências políticas de liberdade mais duradouras. 1678:

 • Registro Português: Um relato português de 1678 lista dez grandes mocambos de Palmares, incluindo o mocambo de Aqualtune, com cerca de 200 casas e paliçada defensiva. Este documento a identifica como mãe de Ganga Zumba e Ganga Zona, destacando a centralidade de sua linhagem. Século XX em diante: 

• Ressignificação de Aqualtune: Movimentos negros, literatura (como os cordéis de Jarid Arraes) e escolas de samba ressignificam Aqualtune como um símbolo de soberania feminina negra e resistência. 

• Presença na Educação: Seu nome passa a ser usado no ensino para discutir gênero, raça, poder e memória, servindo como um excelente tema para alfabetização histórica, contrastando documento e mito. Elenco de Personagens Principais 

• Aqualtune: Figura central dos textos, lembrada como uma mulher negra de grande liderança no século XVII, ligada ao Quilombo dos Palmares. 

Ela chefiava um dos principais mocambos da confederação, possuindo cerca de 200 casas e fortificações. É descrita como uma matriarca estrategista, que combinava disciplina de guerra com cuidado comunitário, acolhendo recém-chegados, arbitrando conflitos e tecendo alianças. É a mãe de Ganga Zumba e Ganga Zona, e avó de Zumbi, colocando-a no coração da linhagem política do quilombo. Embora a tradição popular a retrate como princesa do Reino do Kongo capturada após a Batalha de Mbwila, a crítica histórica a vê mais como um mito fundador poderoso do que como um fato comprovado documentalmente. 

Desaparece dos registros por volta de 1675-1678, mas seu legado como símbolo de soberania feminina negra persiste. 

• Ganga Zumba: Filho de Aqualtune e o "rei" de Palmares durante grande parte de sua existência. Firma um acordo de paz com os coloniais entre 1675 e 1678, o que gera uma cisão na liderança do quilombo

. • Ganga Zona: Filho de Aqualtune e irmão de Ganga Zumba. Mencionado como parte da linhagem central do Quilombo dos Palmares. 

• Zumbi (dos Palmares): Neto de Aqualtune e sobrinho de Ganga Zumba. Nasceu por volta de 1655. Opôs-se ao acordo de paz firmado por Ganga Zumba, tornando-se posteriormente um dos líderes mais icônicos de Palmares.


Plano de Aula: Aqualtune, Liderança e Memória no Quilombo dos Palmares

1. Visão Geral do Plano de Aula

Este plano de aula foi estrategicamente desenhado para aprofundar o ensino da história e cultura afro-brasileira, em plena conformidade com as diretrizes da Lei 10.639/2003. Ao centrar a discussão na figura de Aqualtune, propomos um estudo de caso que transcende a simples biografia, explorando temas complexos como liderança feminina negra, estratégias de resistência ao sistema colonial e a construção da memória histórica. A abordagem interdisciplinar visa fornecer aos alunos ferramentas críticas para analisar como as narrativas sobre o passado são formadas, disputadas e ressignificadas no presente.

Chave de Informação

Detalhe

Tema Central

Aqualtune, liderança feminina negra e resistência no Quilombo dos Palmares.

Público-Alvo

Alunos do Ensino Fundamental (7º ao 9º ano).

Disciplinas Integradas

História, Arte e Língua Portuguesa.

Fonte Principal

Biografia, dados históricos e a música "Mocambo de Aqualtune" (AfroEduca).

Esta visão geral estabelece as bases para alcançarmos os objetivos de aprendizagem específicos que guiarão nossa jornada pedagógica.

2. Objetivos de Aprendizagem

Os objetivos de aprendizagem são a espinha dorsal de qualquer planejamento pedagógico eficaz. Eles orientam o foco do professor, definem as metas para os estudantes e estabelecem critérios claros para a avaliação do desenvolvimento ao longo das atividades. Ao delinear o que se espera que os alunos saibam e sejam capazes de fazer ao final da aula, garantimos que o processo de ensino seja intencional, mensurável e verdadeiramente transformador.

Ao concluir este módulo, os alunos deverão ser capazes de:

  • Identificar e localizar Palmares (Serra da Barriga, AL) no século XVII e explicar a ideia de confederação de mocambos.
  • Distinguir tradição oral de documentos sobre Aqualtune, compreendendo o papel do mito na memória negra.
  • Analisar a letra da música e relacioná-la ao contexto histórico de resistência quilombola.
  • Produzir um mapa conceitual sobre liderança feminina negra na história do Brasil.

O cumprimento destes objetivos está diretamente alinhado às competências e habilidades previstas nas normas curriculares oficiais que validam esta proposta.

3. Conexões Curriculares (Base Nacional Comum Curricular - BNCC)

Alinhar este plano de aula à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é fundamental para legitimar a abordagem pedagógica e facilitar sua integração ao planejamento escolar formal. Essa conexão garante que o estudo aprofundado da história afro-brasileira não seja um apêndice, mas uma parte central e obrigatória da formação dos estudantes, conforme previsto pela Lei 10.639/2003. As competências e habilidades selecionadas promovem uma aprendizagem crítica e multifacetada.

  1. História (EF08HI06, EF09HI02, EF09HI09): Estas habilidades são essenciais para o estudo dos quilombos como formações políticas e sociais complexas, para a análise dos movimentos negros ao longo da história e para a discussão sobre a construção da memória. O caso de Aqualtune permite trabalhar concretamente a diferença entre fontes históricas e narrativas identitárias.
  2. Arte (EF69AR24): A análise da música "Mocambo de Aqualtune" e a proposta de criação de um cordel ou vídeo exploram como a arte pode ser um veículo para a criação e ressignificação cultural, permitindo aos alunos entender como figuras históricas são reinterpretadas por diferentes gerações.
  3. Língua Portuguesa (EF69LP24, EF89LP33): Estas habilidades são mobilizadas na leitura e interpretação de textos poéticos (a letra da música) e na produção de textos multimodais, adaptando a habilidade de produção de resenhas (EF89LP33) para a criação de um cordel ou vídeo (Atividade 3), desenvolvendo a capacidade de análise crítica e de expressão criativa sobre temas históricos.

Com este sólido embasamento curricular, podemos agora mergulhar no conteúdo histórico que dará vida a Aqualtune em sala de aula.

4. Conteúdo Essencial: Quem Foi Aqualtune?

Aqualtune emerge dos registros do século XVII como uma figura central, porém complexa, na história da resistência negra no Brasil. Sua trajetória é um poderoso exemplo da intersecção entre fato documentado e memória popular. Esta seção se dedica a desdobrar sua biografia, diferenciando com clareza o que as fontes históricas confirmam e o que as poderosas narrativas da tradição oral construíram, oferecendo um panorama completo de seu significado.

4.1. O Contexto Histórico: Palmares no Século XVII

Para compreender Aqualtune, é preciso visualizar o cenário do século XVII. O Quilombo dos Palmares não era um único aldeamento, mas uma vasta confederação de mocambos localizada na Serra da Barriga, então parte da Capitania de Pernambuco (hoje, Alagoas). Este território de liberdade negra floresceu em meio ao auge da economia açucareira e do brutal tráfico transatlântico de africanos escravizados. Palmares representava uma ameaça direta à ordem colonial, organizando-se como uma sociedade autônoma que resistiu por décadas às expedições militares que tentavam destruí-la.

4.2. A Líder de Palmares: Fatos Documentados

Os documentos da época, embora escassos, confirmam a autoridade de Aqualtune dentro da estrutura de poder de Palmares. Os registros atestam que ela chefiava um dos principais mocambos da confederação, descrito como uma estrutura fortificada com cerca de 200 casas. Mais importante, os documentos a identificam como mãe de Ganga Zumba, o então "rei" de Palmares, e de Ganga Zona. Essa linhagem a posiciona no coração do poder político do quilombo, tornando-a, por extensão, avó de Zumbi. Sua liderança não era meramente simbólica; a organização militar e comunitária de seu mocambo evidencia uma gestão experiente, que combinava a disciplina necessária para a guerra com o cuidado essencial para a comunidade.

4.3. O Mito Fundador vs. Evidência Histórica

Uma distinção crítica para a alfabetização histórica dos alunos é separar a tradição oral dos registros documentais. A memória popular construiu a narrativa de Aqualtune como uma "princesa do Kongo", filha de um rei, que teria comandado um batalhão na Batalha de Mbwila (1665) antes de ser capturada e vendida como escrava no Brasil.

Contudo, a crítica histórica aponta inconsistências nessa versão. A cronologia é questionada, pois Zumbi, seu neto, teria nascido por volta de 1655, antes da batalha. Além disso, seu nome não consta nas listas de cativos conhecidas do evento. É crucial explicar aos alunos que ambas as versões têm valor. O documento oferece a evidência factual disponível, enquanto a memória cumpre a função de afirmar a dignidade e a nobreza na origem de Palmares, construindo um mito fundador poderoso para a identidade negra.

Compreendida a complexidade histórica de Aqualtune, podemos agora explorar a principal ferramenta pedagógica para levar essa discussão à sala de aula: a música.

5. Ferramenta Pedagógica Central: A Música "Mocambo de Aqualtune"

A música "Mocambo de Aqualtune", criada pela AfroEduca, funciona como um recurso didático estratégico e engajador. A canção condensa informações históricas, referências culturais e imagens poéticas de forma acessível, servindo como um ponto de partida dinâmico para a análise crítica e a discussão em sala de aula. Sua estrutura permite que os alunos acessem o universo de Palmares de maneira sensível antes de aprofundar o debate sobre as fontes históricas.

5.1. Letra da Música

Verso 1

Na serra, o vento conta um nome, Aqualtune,

mão que amarra o medo, olho que vê o lume;

mulher negra, século dezessete em Palmares,

faz da noite abrigo e do amanhã seus lares.

Refrão

Ergue a paliçada, chama a lua e a roça,

quem chega encontra pão, conselho e força;

de Kongo a Serra da Barriga, o peito assume:

livre se vive no mocambo de Aqualtune.

Verso 2

Gente dispersa vira povo em seu caminho,

ela reparte a terra, afasta o desalinho;

quando o tambor avisa, cada um sabe o que é,

defesa é rede, é braço, é fé.

Ponte

Dizem princesa, dizem mito, dizem mar,

documento é pouco, mas não cala o seu lugar;

mulher negra, no Brasil, faz do mundo costume,

governa a noite no mocambo de Aqualtune.

Refrão final

Ergue a paliçada, chama a lua e a roça,

quem chega encontra pão, conselho e força;

na Capitania de Pernambuco, o sonho assume:

livre se vive no mocambo de Aqualtune.

5.2. Análise Estratégica dos Versos para Uso Didático

  • "Na serra… Aqualtune": Este verso inicial utiliza a imagem do vento para situar a narrativa imediatamente na Serra da Barriga, o local de Palmares, e no século XVII. Didaticamente, é o ponto de partida ideal para localizar a história no tempo e no espaço, utilizando mapas históricos.
  • "mão que amarra o medo…": A metáfora da "mão que amarra o medo" e do "olho que vê o lume" traduz de forma poética o papel de Aqualtune como uma líder comunitária que oferecia segurança e visão estratégica. Em sala de aula, este trecho abre uma discussão sobre as qualidades da liderança feminina negra em contextos de adversidade.
  • "de Kongo a Serra…": Aqui, a letra sintetiza a travessia da diáspora africana, conectando a África Central (Kongo) ao Brasil (Serra da Barriga). É uma oportunidade para trabalhar com o mapa do Oceano Atlântico, explicando o tráfico transatlântico e a importância de evitar generalizações sobre o continente africano.
  • "Ergue a paliçada…": A imagem concreta da paliçada remete diretamente às tecnologias de defesa e à organização militar dos mocambos, conforme descrito nos documentos históricos. Este verso permite discutir como as comunidades quilombolas se estruturavam para garantir sua sobrevivência.
  • "Gente dispersa vira povo": Esta antítese poética capta a essência da formação social de Palmares: um lugar que transformava indivíduos dispersos e vitimados pela violência colonial em uma comunidade coesa. A discussão pode ser relacionada a outros processos de migrações forçadas e formação de novos povos.
  • "quando o tambor avisa": O tambor é apresentado como um símbolo sonoro que representa os sistemas de comunicação afro-atlânticos, usados tanto para o alerta de perigo quanto para rituais. Uma atividade prática pode ser a criação de toques e sinais sonoros pela turma para simular essa forma de comunicação.
  • "Dizem princesa, dizem mito": Este verso aborda diretamente o conflito entre a memória e o documento. Ao colocar as narrativas em paralelo, a letra convida à reflexão sobre o que constitui uma "prova" histórica e por que a tradição oral é tão importante para a identidade negra. É o gancho perfeito para a alfabetização histórica.
  • "na Capitania de Pernambuco": O uso do topônimo histórico oferece a chance de trabalhar com mapas da época colonial, comparando os nomes e as fronteiras antigas com as atuais (Alagoas), aprofundando a compreensão geográfica dos alunos.

A análise aprofundada da música prepara o terreno para um roteiro de atividades que transformarão o conhecimento em experiência.

6. Roteiro de Atividades Sugeridas

Este roteiro organiza as atividades propostas em uma sequência pedagógica lógica, partindo da exploração inicial para o aprofundamento analítico e, finalmente, para a criação autoral. O design das atividades visa promover uma aprendizagem ativa, colaborativa e significativa, incentivando os alunos a transformar o conhecimento histórico em uma experiência prática e pessoal.

6.1. Atividade 1: Linha do Tempo Viva (Explorar)

  • Objetivo: Introduzir de forma dinâmica a diferença entre fato documentado, tradição oral e memória.
  • Procedimento:
    1. Prepare cartões com frases curtas sobre Aqualtune (ex: "Mãe de Ganga Zumba", "Princesa do Kongo", "Líder de um mocambo com 200 casas", "Símbolo da força feminina").
    2. Distribua os cartões aos alunos ou a pequenos grupos.
    3. No chão da sala, desenhe três áreas demarcadas: DOCUMENTO, TRADIÇÃO ORAL e MEMÓRIA.
    4. Peça que cada aluno/grupo leia sua frase e se posicione na área que considera mais adequada, justificando sua escolha. Isso iniciará um debate orgânico sobre a natureza de cada fonte.

6.2. Atividade 2: Leitura Orientada da Letra + Mapa (Aprofundar)

  • Objetivo: Conectar a análise poética da música ao contexto geográfico e histórico, aprofundando a discussão sobre fontes.
  • Procedimento:
    1. Apresente a música "Mocambo de Aqualtune" para a turma.
    2. Em grupos, os alunos recebem a letra e um mapa que mostra a rota da África Central (Kongo/Angola) ao Nordeste do Brasil (Palmares).
    3. Oriente-os a sublinhar na letra todos os trechos que possuem uma correspondência geográfica ou histórica (ex: "Kongo", "Serra da Barriga", "paliçada").
    4. Promova um debate guiado pela pergunta central do verso "Dizem princesa, dizem mito": O que serve como prova em História? Um documento escrito vale mais que uma canção ou um poema? Por quê?

6.3. Atividade 3: Cordel ou Vídeo Curto (Criar e Compartilhar)

  • Objetivo: Permitir que os alunos sintetizem e expressem o conhecimento adquirido de forma criativa.
  • Procedimento:
    1. Divida a turma em grupos e lance o desafio: criar uma "Carta do mocambo de Aqualtune".
    2. A carta pode ser apresentada em formato de cordel (texto rimado com ilustrações simples) ou como um vídeo curto (leitura dramatizada, animação, etc.).
    3. O conteúdo deve obrigatoriamente citar os três elementos-chave do contexto: a raça (liderança negra), a época (século XVII) e a localização (Palmares/Serra da Barriga).
    4. Finalize com uma sessão de apresentação dos trabalhos, onde cada grupo compartilha sua criação com a turma.

A realização dessas atividades fornece material rico e diversificado para avaliar o aprendizado dos alunos de maneira contínua e integrada.

7. Avaliação e Consolidação do Aprendizado

A avaliação deste plano de aula deve ser concebida como um processo formativo e contínuo, distanciando-se de um modelo baseado em provas tradicionais. O foco deve estar em observar e registrar como os alunos aplicam os conceitos aprendidos, debatem ideias e mobilizam o conhecimento nas atividades práticas. A avaliação, portanto, acontece durante a jornada, não apenas ao final dela.

Sugerem-se os seguintes métodos de avaliação, diretamente ligados às atividades e aos objetivos propostos:

  • Participação no Debate: Durante a "Leitura orientada", observe e avalie a capacidade do aluno de articular argumentos para diferenciar "mito" de "documento", demonstrando compreensão dos diferentes tipos de fontes históricas e seu valor.
  • Produção Criativa: Analise o "Cordel ou vídeo curto" para verificar se o aluno conseguiu sintetizar e aplicar corretamente as informações centrais do contexto, citando raça, época e localização. A criatividade e a clareza na comunicação também são critérios importantes.
  • Mapa Conceitual: Como atividade de fechamento, solicite a produção de um mapa conceitual individual ou em dupla com o tema "Liderança Feminina Negra". Avalie a capacidade do aluno de conectar o caso de Aqualtune a outros conceitos, como resistência, comunidade, poder e memória.

Da avaliação do aprendizado individual, podemos agora fazer uma transição para uma reflexão coletiva sobre o significado duradouro da figura de Aqualtune.

8. Considerações Finais: O Legado de Aqualtune

A relevância contemporânea de Aqualtune transcende sua biografia histórica. A partir do século XX, sua figura foi ressignificada por movimentos negros, pela literatura (como os cordéis de Jarid Arraes) e por manifestações culturais, como as escolas de samba, transformando-se em um poderoso símbolo de soberania e resistência. Ensinar sobre Aqualtune é, portanto, um ato de reparação histórica e de fortalecimento de identidades, mostrando que a liderança negra, e em especial a feminina, sempre foi um pilar na construção de projetos de liberdade no Brasil.

O legado de Aqualtune pode ser sintetizado em três pontos fundamentais:

  • Símbolo da força e governança de mulheres negras que, mesmo em meio à extrema adversidade do sistema escravista, foram capazes de criar, proteger e governar comunidades.
  • Matriarca da linhagem política central de Palmares, uma das experiências de liberdade mais duradouras e complexas no Atlântico português.
  • Figura central para a discussão sobre gênero, raça, poder e a construção da memória, cujo estudo nos força a confrontar as lacunas dos arquivos oficiais e a valorizar a potência da tradição oral.

Ensinar histórias como a de Aqualtune é mais do que um dever curricular; é um convite para construir um futuro onde a complexidade do nosso passado seja plenamente reconhecida e celebrada.