História Mestre Didi

 



Mestre Didi

📜 História 

 Nascido em 1917 em Salvador, Mestre Didi cresceu em um Brasil profundamente marcado pelo racismo estrutural e pela repressão às religiões de matriz africana. Em sua juventude, viveu sob o impacto do Código Penal de 1890, que criminalizava práticas religiosas afro-brasileiras sob a acusação de "curandeirismo" e "feitiçaria". Desde cedo, presenciou invasões policiais aos terreiros e perseguições a sacerdotes e mães de santo, inclusive sua própria mãe. 

Durante as décadas de 1930 e 1940, enquanto o Brasil passava por intensas transformações políticas e urbanas, Mestre Didi iniciava sua trajetória como artista e intelectual negro. Influenciado pelo movimento de valorização das culturas africanas, sua produção escultórica começou a ganhar notoriedade pela profundidade simbólica e fidelidade aos princípios do candomblé. Suas obras eram ao mesmo tempo litúrgicas e de resistência, desafiando a visão colonialista que inferiorizava a arte negra.

 Na década de 1950, aproximou-se de intelectuais como Édison Carneiro e Arthur Ramos, e foi fundamental para o reconhecimento da cultura afro-brasileira como um campo legítimo de saber. Em 1967, publicou "Os Nagô e a Morte", livro que se tornaria referência acadêmica e religiosa ao abordar a visão africana da ancestralidade, da transição da vida e do culto aos mortos como elo fundamental da existência. 

Nos anos 1970 e 1980, Mestre Didi intensificou sua atuação política e cultural. Participou de eventos internacionais, representando o Brasil em congressos sobre cultura africana e religiosidade tradicional. Em 1980, fundou o Ilê Asipá, uma das primeiras casas voltadas exclusivamente ao culto aos Eguns, rompendo com a marginalização do culto ancestral no Brasil e dando protagonismo a uma linhagem muitas vezes invisibilizada.

 Recebeu homenagens em vida por sua contribuição à arte e à cultura afro-brasileira. Suas esculturas foram expostas em museus de prestígio como o Museu Nacional de Belas Artes (RJ), o Museu Afro Brasil (SP), e instituições internacionais como o Smithsonian Institute (EUA) e a Maison des Cultures du Monde (França). 

Nos anos 1990 e 2000, tornou-se referência para jovens artistas, ativistas e religiosos afro-brasileiros. Participou de debates sobre intolerância religiosa, preservação dos terreiros e inserção da cultura afro nos currículos escolares. 

Faleceu em 2013, mas seu legado permanece como um símbolo da articulação entre espiritualidade, arte e luta política. Sua vida representa uma ponte entre o sagrado e o acadêmico, entre o invisibilizado e o eterno. Mestre Didi é, até hoje, uma das figuras mais respeitadas da cultura negra brasileira.