Cabula
Cabula: História, Crenças e Práticas de uma Tradição Afro-Brasileira
Introdução e definição do Cabula
O Cabula é uma religião afro-brasileira de origem Bantu (centro-africana) que se desenvolveu durante o período colonial no Brasilc Trata-se de uma tradição espiritual sincrética e de caráter secreto, outrora praticada em comunidades de descendentes de africanos escravizados. Foi possivelmente a primeira das religiões afro-brasileiras a constituir-se como culto distinto com nome próprio, derivando dos antigos calundus (rituais africanos coloniais) e precedendo cultos como a Umbanda e o Candomblé. O Cabula floresceu especialmente na região do atual estado do Espírito Santo – razão pela qual é por vezes chamado de religião afro-capixaba – e em áreas próximas, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Atualmente, porém, não há sinais claros de que sobreviva em sua forma original, sendo considerado um culto em grande parte extinto ou absorvido por outras tradições afro-brasileiras. Ainda assim, seu legado histórico e cultural permanece relevante, despertando o interesse de pesquisadores e educadores em compreender essa tradição singular.
Origem histórica e raízes africanas
As raízes do Cabula remetem às práticas religiosas dos povos africanos de língua Bantu trazidos ao Brasil durante o tráfico negreiro, especialmente das regiões do Congo e de Angola. Esses africanos escravizados, dispersos em diversas partes do país ao longo de mais de três séculos, mantiveram vivas muitas de suas crenças e rituais mesmo em solo brasileiroc. No período colonial (séculos XVII a XIX), registros históricos já mencionavam os calundus – cerimônias de transe, cura e invocação espiritual realizadas por negros Bantu – que ocorriam em várias capitanias. Dessas práticas heterogêneas nasceu o Cabula, consolidando-se como um culto estruturado a partir da herança centro-africana. O termo Cabula possivelmente tem origem Bantu e há indícios de que também denomine regiões na África (como localidades em Angola), sugerindo uma continuidade cultural trazida pela diáspora. Formado nesse caldeirão de influências, o Cabula incorporou elementos culturais africanos, mas também sentiu o impacto do contexto colonial brasileiro – incluindo influências do catolicismo imposto e até de saberes indígenas locais. Em síntese, sua gênese histórica reflete o encontro das raízes africanas com a realidade do Brasil escravocrata, resultando em uma nova expressão religiosa afro-brasileira.
Chegada ao Brasil: contexto da diáspora africana
O desenvolvimento do Cabula está intrinsecamente ligado ao contexto da diáspora africana no Brasil. Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram trazidos forçadamente ao país como escravos, e um grande contingente deles era originário da África Central (nações Bantu). No sudeste brasileiro – notadamente no Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – esses grupos centro-africanos formaram comunidades escravas e, posteriormente, comunidades de libertos e quilombos, onde puderam resguardar aspectos de sua cultura. Mesmo sob intensa opressão, eles preservaram seus deuses e rituais desde a chegada- adaptando-os às circunstâncias locais. O Cabula, nesse cenário, emergiu como uma forma específica de culto mantido por esses africanos e seus descendentes. Relatos históricos sugerem que no século XIX a seita Cabula já contava com milhares de adeptos – estimativas da época chegam a citar mais de 8 mil pessoas iniciadas no culto em determinada região. Essa ampla difusão indica que o Cabula teve presença marcante em certas comunidades afro-brasileiras, embora muitas vezes de maneira discreta. Para sobreviver, seus praticantes frequentemente se reuniam em locais isolados (sítios rurais ou em meio à mata) e transmitiam os ensinamentos oralmente de geração em geração. Assim, a chegada do Cabula ao Brasil não foi um evento único, mas um processo gradual de consolidação das tradições africanas Bantu em solo brasileiro, florescendo especialmente onde havia concentração desses grupos e relativa autonomia comunitária (como em quilombos). Esse período inicial marcou o estabelecimento das bases do culto, ainda que de forma velada, como parte da resistência cultural dos africanos diante da diáspora e da escravidão.