Tambor de Mina
📖 Biografia – Tambor de Mina: Voz dos Encantados do Maranhão
O Tambor
de Mina não é apenas uma religião: é uma entidade viva, um ancestral coletivo
que atravessou oceanos e séculos para se manifestar nas terras do Maranhão. É
fruto da diáspora, das dores da travessia e das esperanças fincadas no
terreiro. Não nasceu em um dia específico, nem de uma pessoa só. Seu nascimento
é o som que ecoou das senzalas, dos quilombos, das casas de santo, misturando
sangue, suor, memória e resistência.
O Tambor
de Mina tem corpo negro, alma indígena e espírito encantado. Herdou dos povos
jeje-fon – especialmente os trazidos do Daomé (atual Benin) – a devoção aos
voduns, divindades poderosas que comandam a natureza e os destinos humanos. Mas
também acolheu os caboclos da floresta, os encantados dos rios, os mestres da
jurema, os santos do catolicismo popular e figuras míticas como Dom Sebastião,
rei guerreiro e encantado que reina sob as águas da baía de São Marcos.
Esse
“personagem” sagrado ganhou forma em São Luís, Alcântara, Codó, Guimarães e em
outras cidades maranhenses onde a fé se plantou com tambor, canto e corpo. A
Casa das Minas – considerada o terreiro mais antigo do Brasil – é um de seus
corações. Ali, o Tambor dança com dignidade, com respeito aos ritos ancestrais.
Mas ele também vive nas casas de Nagô, de Mina-Jêje, de Terecô, de encantaria e
em cada fiel que carrega nos passos a força da herança afroindígena.
O Tambor
de Mina foi perseguido. Acusado de feitiçaria, rechaçado pela Igreja,
marginalizado pelo Estado, foi muitas vezes empurrado para os becos e escondido
nas festas “oficiais”. Mas resistiu. Porque o Tambor é teimoso: vibra no peito
dos iniciados, gira no corpo dos médiums, canta mesmo quando querem silenciar.
É uma
entidade de muitos nomes e muitos rostos. Não se fecha em dogmas, pois conhece
a pluralidade de seus filhos. Nele, o sincretismo não é mistura: é diálogo
profundo entre mundos. Cada tambor que soa é uma reza. Cada dança, um
reencontro. Cada vodum, uma ponte entre o céu e a terra.
E hoje, em pleno século XXI, o Tambor de Mina segue pulsando. Nos terreiros de barro batido, nos festivais de cultura popular, nos estudos acadêmicos, na memória oral, na resistência cotidiana. Ele é uma voz que não se apaga, uma raiz que não se corta, uma presença que não se explica com razão, mas se sente com o coração. O Tambor de Mina é, acima de tudo, uma forma de existir: sagrada, coletiva, preta, indígena e encantada.