Revolta dos Malês
📘 Biografia
Pacífico Licutan não era apenas um nome entre muitos. Era um
homem negro, muçulmano, alfabetizado em árabe, que carregava no peito a
dignidade de um povo arrancado de sua terra, mas não de sua fé. Nascido no
território iorubá, chegou à Bahia como tantos outros: cativo, separado de tudo
que amava. Mas mesmo em solo escravocrata, ele não se dobrou. Foi entre as
paredes apertadas dos sobrados de Salvador que sua voz encontrou ressonância –
não em gritos, mas em orações.
Na penumbra das senzalas urbanas, homens como ele se reuniam
para escrever versos do Alcorão, recitar salmos, ensinar o que lembravam da
ciência, da fé, da matemática e das estrelas. Os malês – como eram chamados os
negros muçulmanos – transformavam suas residências em pequenas madraçais, onde
o saber resistia como brasa escondida em palha seca.
Pacífico era reconhecido entre os seus não apenas pela
sabedoria, mas pela retidão de conduta. Trabalhava como alfaiate, profissão que
lhe permitia algum grau de mobilidade e influência entre diferentes grupos
urbanos. Com seus pares, cultivava uma fé que era, ao mesmo tempo, consolo e
resistência. A cada oração, reforçava-se o sentido de pertença e a esperança de
justiça.
A vida dos malês não era só espiritual. Também era
profundamente marcada pela exclusão, pela violência cotidiana e pelo racismo
institucional. Pacífico Licutan viu amigos açoitados, irmãos vendidos,
mesquitas desfeitas e manuscritos sagrados rasgados por autoridades que temiam
mais o saber do que as armas. E mesmo assim, continuou.
No início de 1835, com o Ramadã se aproximando, ele e seus
companheiros decidiram que não rezariam mais em silêncio. Decidiram que, se era
para morrer, que fosse em nome da fé, da liberdade e do futuro. E assim,
silenciosamente, começou a se formar a mais importante revolta urbana de matriz
africana da história do Brasil. No coração da noite, homens como Pacífico
Licutan acenderam uma chama que nunca mais se apagou.
Revolta dos Malês (1835): Resistência Islâmica na Bahia
Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, Salvador, então
capital da província da Bahia, viveu uma das mais emblemáticas rebeliões da
história do Brasil: a Revolta dos Malês. O movimento foi liderado por africanos
muçulmanos, muitos deles escravizados ou libertos, que decidiram enfrentar o
sistema escravista e a opressão religiosa vigente. O levante foi
meticulosamente planejado, e embora tenha durado apenas algumas horas, seu
impacto atravessou séculos.
A cidade de Salvador, no início do século XIX, concentrava
uma das maiores populações africanas das Américas. Muitos desses africanos eram
da etnia nagô (iorubás), praticantes do islamismo, conhecidos como malês – uma
adaptação da palavra iorubá imale, usada para designar muçulmanos. Esses homens
e mulheres preservavam sua fé com rigor: orações diárias, jejum no Ramadã,
ensino do árabe e leitura do Alcorão. Apesar da repressão, criaram redes de
solidariedade e espaços de culto disfarçados, resistindo à conversão forçada e
ao apagamento cultural.
Entre os líderes mais conhecidos da revolta estavam Pacífico
Licutan, Ahuna, Manuel Calafate e Alufá Balá. Eles se comunicavam por cartas em
árabe, organizavam encontros secretos e arrecadavam recursos para armar os revoltosos.
A insurreição foi marcada para ocorrer durante o mês do Ramadã, em um domingo,
dia em que os brancos estariam distraídos em missas ou descansando. A
estratégia era tomar quartéis, libertar os cativos e instaurar uma ordem
baseada na fé islâmica, livre da dominação católica e colonial.
Na noite do levante, cerca de 600 malês armados com espadas,
facas e algumas armas de fogo avançaram pelas ruas do centro de Salvador. A
luta foi intensa, principalmente na região da Ladeira da Praça, do Teatro São
João e da Barroquinha. As forças repressoras, surpreendidas a princípio,
reagiram com violência. O levante foi contido no mesmo dia, com dezenas de
mortos entre os revoltosos e centenas presos.
As punições foram severas. Muitos líderes foram executados
ou deportados para o interior da província. Os muçulmanos passaram a ser
vigiados com maior rigor, e todo tipo de prática religiosa africana foi ainda
mais reprimida. O Alcorão foi proibido. Rezar se tornou um ato de risco.
Mas o legado da Revolta dos Malês transcendeu a derrota
militar. Ela revelou a profundidade da organização política e espiritual dos
africanos no Brasil, sua capacidade de articulação, e a persistência de uma
identidade que resistiu à escravidão. Foi um grito de liberdade que ecoou além
da religião: era a negação do cativeiro, da imposição cultural e da violência
sistêmica.
Hoje, a Revolta dos Malês é reconhecida como um marco na história da resistência negra no Brasil. Seus protagonistas deixaram registros, memórias e sementes que brotaram na luta por direitos, por memória e por dignidade. Cada oração dita em segredo, cada manuscrito escondido, cada passo naquela noite, compõe o mapa da liberdade que os malês ousaram desenhar.