Notas Didáticas Mariana Crioula

 



Mariana Crioula

📘 ANÁLISE DA LETRA – “MARIANA CRIOULA: LIVRE NA ALMA” ________________________________________ 

🎵 Verso 1 

Na cozinha da casa-grande, olhos atentos, Mariana escutava os segredos do tempo. 

👉 Análise: Mariana usava sua posição estratégica como cozinheira para obter informações. O verso aponta a inteligência e vigilância da personagem, ressaltando que a resistência podia se organizar mesmo nos espaços subordinados. 

________________________________________ 

Levava no peito as palavras da mãe, “Liberdade, filha, é o que ninguém te tira, amém.” 

👉 Análise: A memória ancestral, o saber oral e os ensinamentos da mãe são evocados como força de resistência cultural e espiritual. Reflete o papel das mulheres negras na formação dos valores de luta.

 ________________________________________ 

Costurava planos no silêncio da dor, Com Manuel Congo traçava o valor.

 👉 Análise: O verso destaca o planejamento da revolta e a parceria com Manuel Congo, deixando claro que Mariana não foi coadjuvante, mas protagonista da insurreição.

 ________________________________________

 Entre panelas, recados e pão, Gestava na sombra uma revolução.

 👉 Análise: Um dos trechos mais simbólicos da letra. Mostra como a revolução se construía nos bastidores, nas ações cotidianas e discretas, geralmente invisibilizadas na história oficial.

 ________________________________________

 🔁 Coro Mariana Crioula, alma livre e guerreira, Fez da mata sua bandeira verdadeira. Na mão o facão, no coração a fé, Gritou liberdade pra quem não quer mais pé no cipó do senhor de maracujá.

 👉 Análise: O refrão é um grito de afirmação. Mariana é apresentada como símbolo de liberdade. A imagem da mata representa abrigo e resistência. A fé e o facão são armas físicas e espirituais. A última linha traz uma crítica ao sistema escravista de maneira poética.

 ________________________________________ 

🎵 Verso 2 

Na serra marchou com os pés firmes no chão, Cantando alto pra quebrar o grilhão. 

👉 Análise: Mariana participa ativamente da fuga. Cantar alto representa a recusa à submissão e a força coletiva. “Grilhão” remete à escravidão física e mental.

 ________________________________________ 

Trezentos fugiram com o céu como teto, Na liderança, uma mulher de afeto. 

👉 Análise: Referência direta à fuga em massa durante a revolta. Destaca-se a liderança feminina com sensibilidade e coragem, desconstruindo estereótipos de gênero.

 ________________________________________ 

Pegaram seu corpo, não calaram sua voz, Julgada sem culpa, sumiu entre nós. 

👉 Análise: A prisão e julgamento de Mariana são tratados de forma crítica. Mesmo capturada, sua “voz” – símbolo da luta – permanece viva. O sumiço histórico é apresentado como apagamento deliberado.

 ________________________________________ 

Mas o nome resiste em cada favela, Mariana Crioula, flor de sentinela. 

👉 Análise: Mariana se torna símbolo da resistência periférica e negra contemporânea. “Flor de sentinela” representa beleza e vigilância ativa. 

________________________________________ 

🌉 Ponte Disseram que não, tentaram sumir, Mas quem planta coragem, faz o povo florir. Nas encruzas do tempo, o tambor vai chamar: “Mariana, guerreira, vem nos guiar!” 

👉 Análise: A ponte liga o passado ao presente. Mostra como os exemplos de coragem, mesmo ocultados, inspiram novas gerações. O tambor simboliza o chamado ancestral.

 ________________________________________ 

🔁 Refrão final Mariana Crioula, não foi só história, É chama acesa na nossa memória. Livre na alma, sem corrente ou patrão, Mariana é canto, é chão, é nação!

 👉 Análise: Fechamento forte. Mariana não é apenas uma personagem do passado, mas símbolo vivo. A expressão “livre na alma” resgata sua dignidade. Ela é representada como símbolo da identidade nacional.

 ________________________________________ 

📚 SUGESTÕES PEDAGÓGICAS 

🔸 Faixa etária: Ensino Fundamental II (a partir do 6º ano) e Ensino Médio 

🔸 Componentes curriculares: • História • Língua Portuguesa • Arte • Projeto de Vida / Cidadania 

🔸 Habilidades da BNCC: 

História 

• EF09HI01 – Identificar e analisar diferentes formas de resistência à escravidão. 

• EM13CHS102 – Analisar a presença e a atuação das mulheres nas lutas sociais. 

• EF08HI19 – Avaliar o papel dos movimentos sociais no Brasil Império. 

Língua Portuguesa

 • EF69LP17 – Analisar recursos poéticos e estilísticos de canções e textos. 

• EM13LGG102 – Analisar criticamente discursos e narrativas que produzem silenciamentos.

 Arte

 • EF69AR24 – Produzir interpretações poéticas e musicais de temas históricos e sociais.

 ________________________________________ 

🎓 Atividades sugeridas: 

• 🔍 Leitura e análise coletiva da letra. 

• 🧠 Debate sobre a invisibilidade das mulheres negras na história oficial. 

• 🖼️ Produção de cartazes com frases da música e imagens de Mariana Crioula.

 • 🎤 Criação de uma nova estrofe ou rap inspirado no tema. 

• 🗣️ Simulação de julgamento histórico de Mariana Crioula, com alunos como advogados, juízes, testemunhas e Mariana. 

• 📽️ Gravação de videoclipe ou declamação performática com a letra. 


GUIA DE ESTUDO: MARIANA CRIOULA – LIBERDADE E RESISTÊNCIA NEGRA 

Visão Geral 

Este guia de estudo foi elaborado para revisar e aprofundar a compreensão do material fornecido sobre Mariana Crioula. Ele abrange sua biografia, seu papel na Revolta de Paty do Alferes, a análise da música "Mariana Crioula: Livre na Alma", e as sugestões pedagógicas para seu uso.

 QUESTIONÁRIO DE VERIFICAÇÃO DE COMPREENSÃO 

Responda às seguintes perguntas em 2-3 frases cada. 

1. Onde e quando Mariana Crioula nasceu, e qual era sua condição social inicial? 

2. Como a mãe de Mariana influenciou sua educação e valores, apesar das circunstâncias da escravidão? 

3. Qual era a reputação de Mariana entre outros escravizados e como ela demonstrava seu espírito solidário? 

4. Que posição Mariana ocupava na casa-grande de seu fazendeiro e como ela utilizava essa posição para a resistência? 

5. Em que ano ocorreu a Revolta de Paty do Alferes e quem foi o outro líder proeminente dessa insurreição? 

6. Descreva o papel de Mariana Crioula como estrategista e organizadora da Revolta de Paty do Alferes. 

7. Qual foi o desfecho do julgamento de Mariana Crioula após a repressão da revolta, e o que surpreendeu os estudiosos? 

8. Como a música "Mariana Crioula: Livre na Alma" interpreta a "cozinha da casa-grande" como um espaço de resistência? 

9. O que a expressão "flor de sentinela" na música sugere sobre o legado de Mariana Crioula hoje? 

10. Além da história, que outros componentes curriculares as sugestões pedagógicas indicam para o estudo de Mariana Crioula, e por quê? 

GABARITO DO QUESTIONÁRIO

 1. Mariana Crioula nasceu em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. Ela era uma mulher negra escravizada desde o nascimento, criada para trabalhos domésticos e de engenho. 

2. A mãe de Mariana, uma africana da etnia banto, ensinou-lhe em segredo valores como dignidade, resistência e fé. Esses ensinamentos ancestrais foram fundamentais para moldar o espírito de luta de Mariana desde cedo. 

3. Mariana era tida por muitos como uma mulher de "alma quente e palavra forte", transmitindo esperança com seu olhar firme e sereno. Ela demonstrava solidariedade cuidando dos mais velhos e partilhando alimentos com outros escravizados. 

4. Mariana Crioula trabalhava como cozinheira na casa-grande, o que lhe dava acesso privilegiado a informações e movimentações dos senhores. Ela utilizava essa posição para articular encontros secretos, repassar recados e planejar rotas de fuga. 

5. A Revolta de Paty do Alferes ocorreu em novembro de 1838. Manuel Congo foi outro líder proeminente e parceiro de Mariana Crioula nessa emblemática insurreição de escravizados. 

6. Mariana Crioula foi reconhecida como a principal estrategista e organizadora da revolta, assumindo um papel de liderança que desafiava as normas de gênero da época. Sua inteligência tática e carisma eram fundamentais para a articulação do grupo. 

7. Mariana Crioula foi absolvida em seu julgamento, o que surpreendeu muitos estudiosos e a diferencia de Manuel Congo, que foi condenado à morte. As razões para sua absolvição permanecem um mistério, podendo ter sido por pressões políticas ou falta de provas. 

8. A música interpreta a cozinha da casa-grande como um espaço estratégico onde Mariana obtinha informações e "costurava planos no silêncio da dor". Isso demonstra que a resistência podia se organizar de forma discreta, mesmo em ambientes de subordinação. 

9. A expressão "flor de sentinela" sugere que Mariana Crioula não é apenas um símbolo de beleza, mas também de vigilância ativa e resistência contínua. Ela representa a persistência da memória e da luta em contextos contemporâneos, como as favelas. 

10. Além de História, os componentes curriculares incluem Língua Portuguesa, Arte, e Projeto de Vida/Cidadania. Isso se justifica pela análise de recursos poéticos e discursos, produção de interpretações artísticas, e o fomento de valores de cidadania e reflexão sobre a invisibilidade de grupos sociais. 

Sugestões de Perguntas em Formato de Ensaio

 1. Discuta como a história de Mariana Crioula desafia e complementa as narrativas tradicionais sobre a escravidão no Brasil, com foco em sua liderança feminina e a invisibilidade histórica. 

2. Analise a importância dos espaços cotidianos, como a cozinha da casa-grande, na articulação da resistência escrava, utilizando o exemplo de Mariana Crioula. Que outras formas de resistência "gestadas na sombra" podem ser identificadas? 

3. A música "Mariana Crioula: Livre na Alma" utiliza diversas metáforas e símbolos (ex: "mata sua bandeira", "pé no cipó do senhor de maracujá", "flor de sentinela", "tambor vai chamar"). Escolha três desses elementos e explique como eles contribuem para a construção do legado e da memória de Mariana Crioula. 

4. Compare e contraste o destino de Manuel Congo e Mariana Crioula após a Revolta de Paty do Alferes. Quais são as possíveis razões para a absolvição de Mariana e como esse fato impacta sua representação na história e na memória popular? 

5. De que forma o legado de Mariana Crioula, conforme apresentado nos textos, inspira e é relevante para os movimentos sociais e coletivos de mulheres negras na atualidade?

 Considere a conexão entre o passado e o presente na luta por liberdade e reconhecimento.

 GLOSSÁRIO DE TERMOS CHAVE 

• Mariana Crioula: Mulher negra escravizada no século XIX, figura central na liderança e articulação da Revolta de Paty do Alferes, símbolo de resistência e liberdade no Brasil. 

• Revolta de Paty do Alferes: Uma das mais emblemáticas revoltas de escravizados na história do Brasil, ocorrida em 1838, na província do Rio de Janeiro, liderada por Manuel Congo e Mariana Crioula. 

• Manuel Congo: Co-líder da Revolta de Paty do Alferes, conhecido por sua coragem e por ter sido enforcado publicamente após a repressão do movimento. 

• Capitães-do-mato: Indivíduos (muitas vezes negros ou mestiços livres, ou até escravos com a promessa de alforria) contratados pelos senhores de escravos para recapturar escravizados fugidos. 

• Quilombos: Comunidades formadas por escravizados fugidos, indígenas e outras pessoas marginalizadas, que representavam espaços de liberdade e resistência no período colonial e imperial brasileiro. 

• Senzala: Alojamento coletivo e precário onde viviam os escravizados nas fazendas e engenhos. 

• Casa-grande: A residência principal do senhor de engenho ou fazendeiro, onde vivia a família proprietária e alguns escravos domésticos.

 • Etnia banto: Um dos maiores grupos etnolinguísticos da África, do qual muitos africanos escravizados no Brasil descendiam. 

• Apagamento histórico: Processo pelo qual a memória ou o registro de determinados grupos, eventos ou indivíduos é suprimido ou marginalizado nos registros oficiais e nas narrativas dominantes da história. 

• BNCC (Base Nacional Comum Curricular): Documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver na Educação Básica brasileira. 

• Grilhão: Corrente de ferro utilizada para prender escravos, simbolizando a escravidão e a opressão. 

• Afrobeat/Samba-reggae/Trap Afro: Gêneros musicais mencionados como estilos da canção, que combinam elementos da música africana, ritmos brasileiros e batidas contemporâneas, refletindo a fusão cultural e a ancestralidade.

 LINHA DO TEMPO DA VIDA E LUTA DE MARIANA CRIOULA 

• Meados do século XIX: Mariana Crioula nasce no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil. Ela é uma mulher negra, escravizada desde o nascimento. 

• Primeiros anos: Cresce como escravizada, criada para serviços domésticos e trabalhos pesados de engenho. Aprende, em segredo, valores de dignidade, resistência e fé com sua mãe, uma mulher banto.

 • Período de Juventude: Demonstra espírito inquieto e solidário, cuidando dos mais velhos e compartilhando alimentos com outros escravizados. Ouve histórias sobre liberdade, quilombos e revoltas nas senzalas. É vista como uma mulher de "alma quente e palavra forte". 

• Mudança para Campos dos Goitacazes / Paty do Alferes: Mariana é comprada por um fazendeiro cruel na região de Campos dos Goitacazes (e especificamente mencionada como estando na fazenda de Paty do Alferes no contexto da revolta). 

• Anos como cozinheira da casa-grande: Trabalha como cozinheira, posição que lhe dá acesso a informações dos senhores e permite circular por diferentes espaços. Utiliza essa posição para organizar fugas e protestos de forma discreta. 

• Por volta de 1838: Mariana, ao lado de Manuel Congo e outros companheiros, começa a articular uma das mais emblemáticas revoltas de escravizados no Brasil. Ela assume um papel decisivo como estrategista e organizadora. 

• Novembro de 1838: A Revolta de Paty do Alferes (também conhecida como Revolta de Manuel Congo) eclode. Cerca de 300 escravizados fogem das fazendas da região de Vassouras e Paty do Alferes, organizando acampamentos nas matas da Serra do Mar. Mariana marcha com os revoltosos, empunhando um facão e entoando cantos de força. 

• Pós-novembro de 1838: O movimento é rapidamente reprimido pelas forças imperiais, que contam com o apoio de capitães-do-mato e milicianos. Muitos escravizados são mortos ou recapturados. 

• Após a repressão: Mariana Crioula é presa e levada a julgamento.

 • Julgamento: Mariana é, surpreendentemente, absolvida, enquanto Manuel Congo é condenado à morte e enforcado publicamente. A absolvição pode ter sido resultado de pressões políticas, falta de provas ou tentativa das autoridades de apagar a figura feminina da liderança da revolta. 

• Após o julgamento: Mariana desaparece dos registros históricos. Não se sabe seu destino final — se foi vendida, morreu em cárcere ou viveu em liberdade sob outro nome.

 ELENCO DE PERSONAGENS 

• Mariana Crioula: Mulher negra, escravizada, nascida no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Figura central na Revolta de Paty do Alferes (1838). Descrita como tendo um espírito inquieto e solidário, "alma quente e palavra forte". Atuou como cozinheira na casa-grande, usando sua posição para coletar informações e articular a revolta. Foi a principal estrategista e organizadora da fuga em massa, desafiando as normas de gênero da época. Presa após a revolta, foi absolvida em seu julgamento e seu destino posterior é desconhecido. Tornou-se um símbolo de resistência e liberdade, com sua memória perpetuada na cultura popular e em movimentos sociais. 

• Mãe de Mariana Crioula: Mulher africana da etnia banto, também escravizada. Ensinou a Mariana, em segredo, valores de dignidade, resistência e fé, que foram fundamentais para a formação de sua filha e para a revolta. Representa a memória ancestral e a transmissão oral de saberes. 

• Manuel Congo: Líder da Revolta de Paty do Alferes (1838) ao lado de Mariana Crioula. Planejou a fuga coletiva dos escravizados. Foi condenado à morte e enforcado publicamente após a repressão do movimento, ao contrário de Mariana. Seu nome também é associado à revolta, que por vezes é chamada de "Revolta de Manuel Congo". 

• Fazendeiro cruel (Senhor de escravos): O proprietário de Mariana Crioula na região de Campos dos Goitacazes/Paty do Alferes. É descrito como alguém que explorava seus cativos "até o limite da exaustão" e praticava um regime de trabalho forçado "especialmente cruel". Representa a elite escravocrata da época.

 • Capitães-do-mato e Milicianos: Indivíduos (geralmente livres ou libertos) contratados por senhores de escravos ou pelas forças governamentais para perseguir e recapturar escravizados fugidos. Foram cruciais na repressão da Revolta de Paty do Alferes, agindo com brutalidade. 

• Forças Imperiais: Representantes do governo e do poder central do Império do Brasil. Atuaram na repressão violenta da revolta de Paty do Alferes, visando manter a ordem escravista e o controle social. 

• 300 Escravizados Revoltosos: Companheiros de Mariana Crioula e Manuel Congo que participaram da fuga em massa durante a Revolta de Paty do Alferes. Buscavam a liberdade e se organizaram em acampamentos nas matas. Muitos foram mortos ou recapturados após a repressão. Representam o coletivo da resistência.


Proposta de Projeto Pedagógico Interdisciplinar: Mariana Crioula – Memória, Resistência e Protagonismo

1. Apresentação e Justificativa

Este projeto pedagógico propõe o resgate e a análise da trajetória de Mariana Crioula, líder da Revolta de Paty do Alferes (1838), como eixo central para o desenvolvimento de uma educação antirracista e comprometida com a valorização de narrativas historicamente silenciadas. Em um momento em que as diretrizes curriculares demandam abordagens mais inclusivas e críticas, a história de Mariana Crioula — uma mulher de "alma quente e palavra forte" — emerge como uma poderosa ferramenta para desconstruir estereótipos e promover uma compreensão mais complexa e humana do passado brasileiro.

O estudo de figuras como Mariana é fundamental para confrontar o apagamento sistemático de heroínas negras nos registros oficiais. Filha de uma mulher africana da etnia banto, de quem herdou os valores de dignidade e resistência, a biografia de Mariana percorre uma jornada de opressão e luta, desde Campos dos Goitacazes até ser vendida a um fazendeiro cruel em Paty do Alferes. Sua história permite apresentar a resistência à escravidão como um processo ativo, organizado e protagonizado por mulheres e homens que, com coragem e estratégia, lutaram por sua liberdade. A trajetória de Mariana inspira debates essenciais sobre gênero, raça e justiça social, conectando o Brasil Império às pautas contemporâneas, afinal, como afirma a canção que a homenageia, "o nome resiste em cada favela".

Portanto, este projeto visa preencher uma lacuna histórica e instrumentalizar educadores e estudantes para a formação de uma nova geração com pensamento crítico e consciência cidadã. Ao estabelecer a relevância de sua memória, podemos agora delinear os objetivos de aprendizagem específicos concebidos para orientar esta investigação histórica.

2. Objetivos de Aprendizagem

Os objetivos deste projeto foram cuidadosamente desenhados para transcender a simples memorização de fatos históricos. A proposta foca no desenvolvimento de competências analíticas, socioemocionais e culturais, incentivando os estudantes a se tornarem investigadores ativos da história, capazes de interpretar fontes diversas e relacionar o passado com os desafios do presente.

O objetivo geral deste projeto é analisar a trajetória de Mariana Crioula e a Revolta de Paty do Alferes (1838) como um estudo de caso sobre as estratégias de resistência à escravidão no Brasil Império, destacando o protagonismo feminino negro e sua relevância para a compreensão das lutas sociais contemporâneas.

Para alcançar este propósito maior, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos:

  1. Contextualizar a Revolta de Paty do Alferes no cenário político e social do Brasil Império em 1838, marcado por tensões e movimentos populares de resistência.
  2. Identificar o papel estratégico e de liderança de Mariana Crioula na organização da revolta, desafiando as narrativas que a colocam como coadjuvante de Manuel Congo.
  3. Analisar a canção "Mariana Crioula: Livre na Alma" como fonte histórica e ferramenta pedagógica, interpretando seus recursos poéticos e simbólicos para compreender a construção de sua memória.
  4. Debater as causas e consequências do silenciamento histórico de mulheres negras, utilizando o misterioso destino de Mariana após seu julgamento e absolvição como ponto de partida para a reflexão.
  5. Relacionar o legado de resistência de Mariana Crioula com as pautas de movimentos sociais contemporâneos, especialmente os coletivos de mulheres negras que se inspiram em sua luta.

Estes objetivos estão em total conformidade com as competências e habilidades exigidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como detalhado na seção a seguir.

3. Alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

O alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) confere validação pedagógica e relevância institucional a este projeto. A proposta não é apenas tematicamente importante, mas também cumpre rigorosamente as competências e habilidades exigidas para o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio, garantindo uma integração curricular coesa e eficaz.

O caráter interdisciplinar do projeto mobiliza os seguintes componentes curriculares:

  • História
  • Língua Portuguesa
  • Arte
  • Projeto de Vida / Cidadania

A tabela abaixo detalha como as atividades propostas desenvolvem habilidades específicas da BNCC:

Habilidade BNCC

Desenvolvimento no Projeto

EF09HI01

Analisa a Revolta de Paty do Alferes como uma forma organizada de resistência à escravidão, focando nas estratégias de Mariana Crioula.

EM13CHS102

Examina a atuação central de Mariana Crioula como líder e estrategista, avaliando a presença e o protagonismo feminino na luta.

EF08HI19

Avalia o impacto e a organização da revolta liderada por Manuel Congo e Mariana Crioula como um movimento social relevante do Brasil Império.

EF69LP17

Interpreta criticamente os recursos poéticos e estilísticos da canção "Mariana Crioula: Livre na Alma" para compreender a construção da narrativa.

EM13LGG102

Analisa como a narrativa oficial silenciou a figura de Mariana, promovendo um debate crítico sobre os discursos que produzem apagamentos históricos.

EF69AR24

Incentiva os alunos a criarem produções artísticas (musicais, cênicas, visuais) baseadas na história de Mariana e na análise da canção.

Com este sólido embasamento curricular estabelecido, podemos agora detalhar a abordagem metodológica que dará vida a esses objetivos em sala de aula.

4. Metodologia e Eixos Temáticos

A abordagem metodológica deste projeto é fundamentada nos princípios da aprendizagem ativa, do pensamento crítico e da interdisciplinaridade. A proposta se estrutura em torno do uso de fontes diversas — textos biográficos e históricos, e especialmente a canção "Mariana Crioula: Livre na Alma" — como catalisadores para a investigação e o debate. O protagonismo estudantil é incentivado por meio de atividades participativas que conectam o conhecimento histórico à expressão artística e à reflexão cidadã.

Para organizar o desenvolvimento do projeto, a metodologia foi estruturada em três eixos temáticos principais:

Eixo 1: História, Memória e Apagamento Este eixo se concentrará na análise factual da Revolta de Paty do Alferes de 1838 e no debate sobre os processos de silenciamento histórico. O foco será questionar por que figuras como Mariana foram sistematicamente invisibilizadas, utilizando seu julgamento como um poderoso estudo de caso. A surpreendente absolvição de Mariana, seguida por seu desaparecimento dos registros, abre uma rica frente de investigação sobre as possíveis causas: pressões políticas, falta de provas ou uma tentativa deliberada das autoridades de apagar a liderança feminina da memória da revolta.

Eixo 2: Protagonismo Feminino e Resistência Aqui, o projeto explorará em profundidade o papel de liderança de Mariana Crioula, desconstruindo estereótipos de gênero que frequentemente relegam mulheres a posições secundárias. Serão analisados os relatos que a descrevem como "estrategista" e "organizadora", destacando como sua posição de cozinheira na casa-grande foi utilizada de forma tática para obter informações e articular a fuga. Este eixo visa celebrar e compreender a agência feminina negra nas lutas por liberdade.

Eixo 3: Arte como Ferramenta de Luta e Educação A canção "Mariana Crioula: Livre na Alma" será o fio condutor deste eixo. A música, que mescla gêneros contemporâneos como Afrobeat, Samba-reggae e Trap Afro, será tratada como um documento cultural que conecta o passado ao presente dos estudantes. A análise de sua letra permitirá interpretar simbolismos poderosos — a mata como "abrigo e resistência", o tambor como um "chamado ancestral" — e discutir como a expressão "livre na alma" representa a máxima reconquista da dignidade. Este eixo demonstrará como a arte pode ser uma ferramenta de educação, memória e luta.

Esses eixos temáticos se materializarão em um conjunto de atividades práticas e engajadoras, projetadas para envolver os estudantes em diferentes níveis de profundidade e expressão.

5. Plano de Atividades Sugeridas

O plano de atividades a seguir é apresentado como uma sugestão flexível, que pode ser adaptada à realidade de cada turma e instituição. A sequência foi organizada em etapas progressivas — sensibilização, aprofundamento e produção — para garantir um engajamento crescente e significativo por parte dos alunos.

  1. Leitura e Análise Coletiva Esta atividade inaugural propõe uma imersão nos materiais-base do projeto. Inicia-se com a leitura compartilhada da biografia de Mariana Crioula e do contexto histórico da Revolta de Paty do Alferes. Em seguida, a turma realizará uma análise guiada e colaborativa da letra da canção "Mariana Crioula: Livre na Alma", utilizando o material de apoio para decodificar as metáforas e os simbolismos presentes em cada verso.
  2. Debate Crítico Com o objetivo de promover a reflexão e a argumentação, será organizada uma roda de conversa com o tema "A invisibilidade das mulheres negras na história oficial do Brasil". O caso de Mariana servirá como disparador para que os estudantes discutam os mecanismos de silenciamento, a importância da memória e a necessidade de resgatar narrativas marginalizadas, conectando o debate a questões contemporâneas de representatividade.
  3. Produção Criativa e Intervenção Artística Nesta etapa, os alunos transformarão o conhecimento adquirido em manifestações culturais. Em grupos, poderão escolher uma das seguintes produções: a criação de cartazes ou lambe-lambes com frases impactantes da música para uma exposição na escola; a composição de uma nova estrofe ou um rap que dialogue com a canção original; ou a gravação de um vídeo performático com a declamação da letra, explorando recursos cênicos e audiovisuais.
  4. Simulação de Julgamento Histórico Para desenvolver habilidades de pesquisa e argumentação de forma imersiva, a turma realizará uma dramatização simulando o julgamento de Mariana Crioula. Serão distribuídos papéis (advogados, juízes, testemunhas e a própria Mariana), e os alunos deverão construir argumentos com base nos fatos estudados, explorando criticamente não apenas suas ações, mas também as complexas razões políticas e sociais que podem ter levado à sua surpreendente absolvição.

A execução dessas atividades será acompanhada por um sistema de avaliação coerente com a natureza processual e formativa da proposta.

6. Avaliação

A avaliação deste projeto será contínua, formativa e processual, afastando-se de um modelo puramente classificatório. O objetivo é valorizar não apenas o resultado final, mas também o engajamento, a colaboração e o desenvolvimento do pensamento crítico ao longo de todas as etapas, fornecendo feedback constante aos estudantes.

Os seguintes critérios serão observados:

  • Argumentação e Colaboração: Avaliar a contribuição nos debates, observando o uso de evidências dos textos de apoio para formular argumentos e a capacidade de construir sobre as ideias dos colegas.
  • Análise de Fontes: Aferir a capacidade de interpretação crítica da letra da música e dos textos históricos, verificada por meio das discussões em sala e de pequenos registros escritos ou orais.
  • Produção Criativa: Avaliar a originalidade, a coerência com o tema e a qualidade da execução dos trabalhos artísticos, considerando o processo criativo do grupo e a profundidade da mensagem transmitida.
  • Pesquisa e Argumentação Histórica: Observar a capacidade de construir argumentos coerentes com o período histórico e o papel designado, utilizando fatos da biografia e do contexto da revolta durante o julgamento simulado.

Essa abordagem avaliativa funciona como um diagnóstico contínuo do processo de aprendizagem e como um impulso para a conclusão bem-sucedida do projeto.

7. Conclusão

O projeto pedagógico "Mariana Crioula – Memória, Resistência e Protagonismo" representa mais do que uma atividade extracurricular; é uma iniciativa estratégica com um profundo valor transformador. Ao resgatar a história de uma heroína negra silenciada, o projeto cumpre com excelência as diretrizes da BNCC para uma educação crítica e cidadã, ao mesmo tempo em que promove um ambiente escolar mais inclusivo, diverso e representativo. O impacto na formação dos estudantes transcende o conteúdo histórico, cultivando a empatia, o respeito à diversidade e a consciência de que a história é um campo vivo, em constante disputa e reescrita. Convidamos esta instituição a abraçar esta proposta, reafirmando seu compromisso com uma educação de excelência e com a formação de cidadãos capazes de construir uma sociedade mais justa e igualitária.