João de Deus
“República do Povo”
– Análise (Verso a Verso)
**Verso
1 – “No Recôncavo, coragem (ô!) / Na taberna, rebelião (ô!)”**
- Localiza a Conjuração Baiana no Recôncavo e nas tabernas/oficinas, espaços
populares de articulação.
**“João de Deus, o alfaiate / Costurava libertação”**
- O ofício de alfaiate simboliza articulação de redes e ideias libertárias. É
metáfora e realidade histórica.
**“Liberdade pro povo / Foi o grito que ecoou”**
- Referência aos panfletos que pregavam abolição e república.
**Refrão – “República do povo — Bahia vai se erguer!”**
- Centralidade da ideia republicana e igualitária.
**Verso 2 – “No papel, rebelião (ô!) / O panfleto convocava”**
- Alusão direta aos panfletos colados nos muros de Salvador convocando à
revolta.
**“Mesmo no cadafalso / Sua voz não se calou”**
- Execução dos quatro mártires (1799, Praça da Piedade).
**Ponte – “Ecoa na Piedade / O lamento popular”**
- Memória do martírio coletivo, conceito de memória histórica.
**Refrão final – “A memória dos mártires — é luz a nos guiar”**
- Sacrifício transformado em símbolo de cidadania e resistência.
**Recursos
estilísticos identificados**
- Metáforas: “costurava libertação” (alfaiate como símbolo da luta).
- Topônimos: Recôncavo, Piedade → lugares como símbolos históricos.
- Interjeições (ô!): oralidade popular e ritmo afro-baiano.
- Refrão repetitivo: efeito de slogan político e memorização coletiva.
- Antítese: “lamento” × “chama que não apaga” → dor convertida em esperança.
**Atividades sugeridas**
- Destacar figuras de linguagem em cada verso.
- Reescrever refrões como panfletos políticos atuais.
- Recitar/cantar em roda com percussão corporal.
- Elaborar glossário histórico: panfleto, cadafalso, república, mártir.
Notas Didáticas e BNCC
**História**
- EF08HI05: Explicar movimentos e rebeliões na América portuguesa (Conjuração
Baiana), relacionando com ideais iluministas.
**Língua Portuguesa**
- EF69LP48: Interpretar efeitos de recursos expressivos (rimas, figuras) em
canções.
- EF69LP33: Produzir textos autorais de intervenção social (panfletos,
slogans).
**Arte – Música**
- EF69AR19: Identificar estilos musicais (samba-funk, samba-reggae) em seus
contextos culturais.
- EF69AR17: Explorar meios de circulação musical (da canção ao sarau/podcast).
**Competências Gerais**
1. Conhecimento; 3. Repertório cultural; 4. Comunicação; 6. Trabalho e projeto
de vida;
8. Autoconhecimento e autocuidado; 9. Empatia e cooperação.
**Objetivos **
- História: compreender a letra como documento histórico e político.
- Português: analisar recursos poéticos e produzir novos textos de intervenção.
- Arte: experimentar ritmo afro-baiano em atividades coletivas.
Guia de Estudos: João de
Deus e a Conjuração Baiana
Este guia
foi elaborado para aprofundar e avaliar a compreensão sobre a vida de João de
Deus do Nascimento, o contexto e os desdobramentos da Conjuração Baiana de
1798, e a análise da música "República do Povo". Utilize as seções a
seguir para testar seus conhecimentos e explorar os temas em maior detalhe.
Questionário de Respostas Curtas
Responda
às seguintes perguntas em 2 ou 3 frases, utilizando exclusivamente as
informações fornecidas nos textos de referência.
- Quem foi João de Deus do
Nascimento e qual era sua formação e profissão?
- Quais foram as principais
inspirações ideológicas e os objetivos centrais da Conjuração Baiana de
1798?
- Descreva o caráter popular
da Conjuração Baiana e os grupos sociais que participaram do movimento.
- Como João de Deus utilizou
sua alfabetização e sua profissão para promover os ideais do movimento?
- Qual foi o desfecho da
Conjuração Baiana para seus quatro principais líderes após a denúncia do
movimento?
- Além de João de Deus, quem
foram os outros três líderes condenados à morte e executados em 1799?
- Na música "República do
Povo", qual o significado da metáfora "Costurava
libertação"?
- Qual evento histórico
ocorreu na Praça da Piedade e qual o seu significado simbólico nos dias de
hoje?
- Cite três das propostas
consideradas radicais da conspiração para a sociedade da época.
- De acordo com o texto, como
a memória de João de Deus e dos outros mártires é interpretada atualmente?
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Gabarito do Questionário
- João de Deus do Nascimento
foi um dos líderes da Conjuração Baiana, nascido em Cachoeira (Recôncavo
Baiano) e filho de africanos libertos. Ele tinha uma formação incomum para
a época, sabendo ler e escrever em árabe e português, e trabalhava como
alfaiate, uma profissão que lhe permitia articular ideias e consolidar sua
liderança.
- A Conjuração Baiana foi
inspirada pela Revolução Francesa e por ideais republicanos. Seus
objetivos centrais eram derrubar o domínio português na Bahia, proclamar
uma república popular, abolir a escravidão e instituir a igualdade entre
brancos e negros.
- O movimento teve um forte
caráter popular e democrático, com participação ativa de alfaiates,
soldados, pequenos comerciantes, libertos e escravizados. Essa base social
o diferenciou de outras revoltas coloniais, que eram geralmente restritas
às elites.
- João de Deus usou sua
profissão de alfaiate como um espaço para a circulação de ideias políticas
e discussões. Além disso, sua alfabetização permitiu que ele atuasse na
propaganda clandestina, sendo um dos responsáveis por copiar e distribuir
os panfletos manuscritos que convocavam o povo à revolução.
- Após a denúncia do movimento
em agosto de 1798, os quatro principais líderes, incluindo João de Deus,
foram presos, julgados e condenados à morte por enforcamento. A execução
ocorreu em 8 de novembro de 1799, e seus corpos foram esquartejados e
expostos para intimidar a população.
- Os outros três líderes
condenados à morte e executados junto com João de Deus foram Lucas Dantas,
Luiz Gonzaga das Virgens e Manuel Faustino.
- A metáfora "Costurava
libertação" simboliza como João de Deus utilizava seu ofício de
alfaiate não apenas para seu sustento, mas como uma ferramenta para
articular redes de pessoas e tecer as ideias libertárias da conspiração,
unindo diferentes grupos em torno do objetivo da revolução.
- Na Praça da Piedade, em
Salvador, ocorreu a execução dos quatro mártires da Conjuração Baiana em
1799. Hoje, o local abriga um monumento em homenagem a eles, simbolizando
a memória do martírio e o legado de resistência e luta pela liberdade.
- As propostas radicais da conspiração
incluíam a abolição da escravidão, a instituição da igualdade racial entre
brancos e negros, e a garantia de salários justos para os soldados.
- Atualmente, João de Deus e
seus companheiros são lembrados como mártires da liberdade e precursores
da independência do Brasil. Suas memórias se transformaram em um símbolo
de resistência, coragem popular e da luta contra a escravidão, inspirando
novas gerações.
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Questões para Dissertação
Reflita
sobre os temas abaixo e prepare argumentos para uma resposta em formato de
dissertação, utilizando o contexto fornecido como base.
- Discuta como a profissão de
alfaiate e os espaços de trabalho, como as oficinas e tabernas,
contribuíram para a articulação política e a disseminação de ideias na
Conjuração Baiana.
- Analise o caráter popular e
democrático da Conjuração Baiana, explicando por que ela é considerada um
dos primeiros movimentos com essas características na história do Brasil.
- Explique a importância dos
panfletos como ferramenta de propaganda clandestina para os conspiradores
e como a alfabetização de líderes como João de Deus foi fundamental nesse
processo.
- Descreva a punição imposta
aos líderes da Conjuração e discuta como, apesar da intenção de
intimidação por parte da Coroa portuguesa, o evento transformou os
mártires em símbolos de resistência.
- Utilizando a análise da
música "República do Povo", demonstre como recursos estilísticos
(metáforas, toponímias, refrão) são empregados para narrar a história da
Conjuração Baiana e construir a memória de seus heróis.
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Glossário de Termos-Chave
|
Termo |
Definição |
|
Cadafalso |
Estrutura
elevada, geralmente de madeira, onde ocorriam execuções públicas, como o
enforcamento dos líderes da Conjuração Baiana na Praça da Piedade. |
|
Conjuração
Baiana |
Movimento
revolucionário de caráter popular ocorrido em 1798 na Bahia, que buscava a
independência de Portugal, a proclamação de uma república, a abolição da
escravidão e a igualdade racial. Também conhecida como Revolta dos Alfaiates
ou Revolta dos Búzios. |
|
Coroa
Portuguesa |
Refere-se
ao governo do Império Português, a autoridade colonial que dominava o Brasil
na época e contra a qual a Conjuração Baiana se rebelou. |
|
Libertos |
Pessoas
que nasceram escravizadas e conseguiram sua liberdade, ou filhos de africanos
que já nasceram livres. João de Deus era filho de africanos libertos. |
|
Mártir |
Alguém
que morre ou sofre grandemente em defesa de uma causa ou ideal. João de Deus
e seus companheiros são considerados mártires da liberdade por terem sido
executados por lutarem por seus ideais revolucionários. |
|
Panfleto |
Texto
curto, geralmente manuscrito na época, usado para divulgar ideias de forma
rápida e clandestina. Na Conjuração Baiana, os panfletos foram colados em
locais públicos de Salvador para convocar a população à revolta. |
|
Recôncavo
Baiano |
Região
geográfica e cultural no entorno da Baía de Todos-os-Santos, na Bahia,
marcada historicamente pela economia do açúcar e tabaco, pelo trabalho
escravo e por uma forte presença da cultura afro-brasileira. |
|
República |
Forma
de governo na qual o chefe de Estado é eleito pelo povo ou por seus
representantes. Era o modelo político defendido pelos conjurados, em oposição
à monarquia portuguesa. |
Proposta de Projeto Pedagógico
Multidisciplinar: João de Deus e a República do Povo
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1.0 Apresentação e Justificativa
Este
projeto pedagógico nasce da necessidade estratégica de resgatar e valorizar, no
currículo escolar, figuras históricas populares que representam a luta do povo
brasileiro por justiça e liberdade. Ao centrar a narrativa em João de Deus do
Nascimento e na Conjuração Baiana, preenchemos uma lacuna fundamental no ensino
de História, deslocando o foco para um movimento de base popular, de profundo
protagonismo negro e com um projeto de nação radicalmente inclusivo.
A
relevância desta iniciativa é inquestionável. A Conjuração Baiana de 1798,
liderada por homens como João de Deus, um alfaiate negro, filho de africanos
libertos e notavelmente alfabetizado em árabe e português, propunha ideias
precursoras e revolucionárias para o Brasil colonial: a abolição imediata da
escravidão, a proclamação de uma república popular e a instituição da igualdade
racial. Estudar este movimento não é apenas revisitar um fato histórico, mas
compreender as raízes das lutas sociais que moldam o Brasil contemporâneo e
reconhecer a agência política de grupos historicamente subalternizados.
Para
tornar este conteúdo denso e complexo mais acessível e significativo para os
estudantes do século XXI, o projeto adota uma abordagem inovadora: a utilização
da música "República do Povo", uma composição original da AfroEduca,
como fio condutor do processo de aprendizagem. Esta metodologia não só engaja
os alunos através de uma linguagem artística com a qual se identificam, mas
também se alinha diretamente às competências de repertório cultural e comunicação
preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), transformando a sala
de aula em um espaço de análise crítica e expressão criativa.
A seguir,
apresentamos o contexto histórico que fundamenta esta proposta, detalhando a
trajetória de João de Deus e o movimento que ele ajudou a liderar.
2.0 Contextualização Histórica: A Luta por um
Brasil mais Justo
Para
avaliar a magnitude e a coragem dos envolvidos na Conjuração Baiana, é
imprescindível compreender o cenário social, político e econômico da Bahia no
final do século XVIII. Era um território de profundas contradições, onde a
opulência da elite colonial contrastava brutalmente com a opressão da vasta
maioria da população.
A Conjuração Baiana (1798): Uma Revolução Popular
Salvador
e seu Recôncavo viviam um paradoxo: enquanto a economia baseada no trabalho
escravo gerava imensa riqueza para a elite branca, a população majoritariamente
negra — composta por escravizados, libertos e seus descendentes — enfrentava a
miséria e sonhava com a liberdade. Foi neste ambiente de efervescência e tensão
que floresceu a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates
ou Revolta dos Búzios.
Inspirado
diretamente pela Revolução Francesa (1789) e seus ideais republicanos, o
movimento articulado por João de Deus, Lucas Dantas, Luiz Gonzaga das Virgens e
Manuel Faustino era ousado e possuía objetivos claros e radicais para a época:
- Abolir a escravidão;
- Instituir a igualdade entre
brancos e negros;
- Garantir salários justos
para os soldados;
- Melhorar as condições de
vida da população pobre.
Diferentemente
de outras revoltas coloniais, muitas vezes restritas às elites, a Conjuração
Baiana destacou-se por seu caráter popular e democrático. Contou com a
participação ativa de alfaiates, soldados, pequenos comerciantes, libertos e
escravizados, tornando-se um dos primeiros movimentos verdadeiramente
democráticos da história do Brasil.
João de Deus do Nascimento: O Articulador da
Liberdade
Nascido
em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, João de Deus era filho de africanos libertos
e cresceu em um ambiente de forte identidade cultural negra, com influências
islâmicas dos povos nagôs e haussás. Sua formação era incomum para um homem
negro da época: era alfabetizado em árabe e português, o que lhe conferia uma
capacidade única de transitar entre diferentes grupos.
Sua
profissão de alfaiate era mais do que um meio de sustento; as oficinas eram
centros de circulação de notícias e debate político, onde a semente da revolta
era cultivada. João de Deus consolidou-se como uma referência moral e
espiritual, utilizando sua casa para reuniões discretas e sua liderança para
inspirar confiança. Ele desempenhou um papel fundamental na conspiração, sendo
responsável por:
- Mobilizar pessoas comuns em torno do ideal de
transformação social.
- Articular a propaganda
clandestina,
copiando e distribuindo os panfletos manuscritos que convocavam o povo à luta.
- Colaborar com outros líderes, como Lucas Dantas e Luiz
Gonzaga das Virgens, para organizar as ações.
Sua vida
pessoal confundia-se com a causa da liberdade, transformando-o em um símbolo
de dignidade e resistência para a comunidade negra e, consequentemente, em
um "homem perigoso" para as autoridades coloniais.
O legado
de coragem de João de Deus e dos mártires da Conjuração Baiana inspira os
objetivos educacionais que este projeto busca alcançar, conectando o passado de
luta à formação cidadã do presente.
3.0 Objetivos Pedagógicos
Os
objetivos deste projeto foram cuidadosamente desenhados para transcender a
simples memorização de fatos históricos. Visamos promover o desenvolvimento do
pensamento crítico, da empatia e da consciência cidadã, capacitando os
estudantes a analisar o passado para compreender e transformar o presente.
Os
objetivos pedagógicos centrais, articulados de forma multidisciplinar, são:
- Em História: Analisar a letra da música
"República do Povo" como um documento histórico e político,
permitindo aos alunos compreender as causas, os atores sociais e os ideais
da Conjuração Baiana de 1798.
- Em Língua Portuguesa: Interpretar os recursos
poéticos e estilísticos presentes na canção, como metáforas e slogans, e
capacitar os alunos a produzir textos autorais de intervenção social, como
panfletos e manifestos que dialoguem com questões contemporâneas.
- Em Arte: Explorar e experimentar o
ritmo afro-baiano que estrutura a música (samba-funk) por meio de
atividades coletivas de percussão corporal e canto, reconhecendo a música
como uma poderosa forma de expressão cultural e registro histórico.
Para
atingir esses objetivos de forma integrada e dinâmica, propomos uma metodologia
que posiciona a música como a ferramenta central de todo o processo de aprendizagem.
4.0 Abordagem Metodológica: A Música como Documento
e Ferramenta de Engajamento
Acreditamos
que a música é uma ferramenta pedagógica de imenso poder, capaz de conectar o
conteúdo histórico à sensibilidade, à memória afetiva e ao universo cultural
dos estudantes. Ela traduz conceitos complexos em linguagem poética e rítmica,
facilitando a apreensão e a reflexão crítica.
O eixo
central desta metodologia é a canção "República do Povo",
criada pela AfroEduca especificamente como um recurso didático para abordar a
Conjuração Baiana. A música funciona simultaneamente como fonte histórica, objeto
de análise literária e inspiração para a produção artística.
Análise Pedagógica da Letra
A letra
da música foi estruturada para conter referências diretas a eventos, conceitos
e personagens históricos, permitindo uma análise aprofundada em sala de aula.
|
Trecho
da Música |
Análise
e Significado Histórico |
|
"No
Recôncavo, coragem (ô!) / Na taberna, rebelião (ô!)" |
Localiza
geograficamente a Conjuração e aponta as oficinas e tabernas como os espaços
populares onde as ideias revolucionárias circulavam. |
|
"João
de Deus, o alfaiate / Costurava libertação" |
Utiliza
a metáfora do ofício de alfaiate para simbolizar a articulação de redes de
pessoas e a construção de ideias libertárias. |
|
"República
do povo — Bahia vai se erguer!" |
Representa
a centralidade da ideia republicana e igualitária como o principal objetivo
do movimento. |
|
"No
papel, rebelião (ô!) / O panfleto convocava" |
Faz
alusão direta à estratégia de propaganda do movimento: a produção e
distribuição de panfletos manuscritos nos muros de Salvador. |
|
"Mesmo
no cadafalso / Sua voz não se calou" |
Refere-se
à execução dos quatro líderes na Praça da Piedade em 1799, ressaltando que o
martírio não silenciou o ideal. |
|
"Ecoa
na Piedade / O lamento popular" |
Evoca o
conceito de memória histórica, transformando o local da execução em um espaço
simbólico de resistência e luto coletivo. |
|
"A
memória dos mártires — é luz a nos guiar" |
Conclui
que o sacrifício dos líderes foi ressignificado, tornando-se um símbolo de
cidadania e inspiração para lutas futuras. |
Recursos Estilísticos e Potencial Didático
A canção
utiliza diversos recursos que podem ser explorados pedagogicamente para
aprofundar a compreensão do tema e desenvolver habilidades de linguagem:
- Metáforas: A expressão "costurava
libertação" é um ponto de partida ideal para discutir como a
linguagem figurada pode carregar significados históricos e políticos
profundos.
- Topônimos: O uso de lugares como
"Recôncavo" e "Piedade" permite trabalhar a geografia
como parte da construção da memória histórica.
- Interjeições: O "(ô!)" evoca a
oralidade popular e o ritmo afro-baiano, abrindo espaço para discussões
sobre cultura, identidade e musicalidade.
- Refrão Repetitivo: Funciona como um slogan
político, ideal para analisar a construção de mensagens de impacto e para
atividades de memorização coletiva e engajamento.
- Antítese: O contraste entre o
"lamento" da execução e a "chama que não apaga" da
esperança pode ser usado para discutir como a dor pode ser convertida em
força política.
Essa
abordagem metodológica encontra sólido respaldo nas diretrizes curriculares
nacionais, garantindo que a inovação caminhe lado a lado com os objetivos de
aprendizagem formais.
5.0 Estrutura Multidisciplinar e Alinhamento à BNCC
A força
deste projeto reside em sua natureza multidisciplinar, que integra os
componentes de História, Língua Portuguesa e Arte. Essa abordagem promove uma
visão mais holística do conhecimento, permitindo que os alunos compreendam como
diferentes linguagens e saberes se conectam para construir a memória e a
identidade de um povo.
O projeto
está totalmente alinhado às habilidades e competências da Base Nacional Comum
Curricular (BNCC), como detalhado abaixo.
|
Componente
Curricular |
Habilidades
da BNCC |
Aplicação
no Projeto |
|
História |
EF08HI05 |
Relacionando
a Conjuração Baiana aos ideais iluministas e à Revolução Francesa, como
explicitado no contexto histórico da proposta. |
|
Língua
Portuguesa |
EF69LP48 |
Interpretando
os efeitos de sentido de recursos expressivos (metáforas, rimas, refrão) na
letra da canção "República do Povo". |
|
Língua
Portuguesa |
EF69LP33 |
Produzindo
textos de intervenção social, como a reescrita dos refrões em formato de
panfletos que dialoguem com questões atuais. |
|
Arte
(Música) |
EF69AR19 |
Identificando
e contextualizando o estilo musical da canção (samba-funk), explorando suas
raízes na cultura afro-baiana. |
|
Arte
(Música) |
EF69AR17 |
Explorando
diferentes meios de circulação musical ao transformar o aprendizado em um
produto final, como um sarau, podcast ou vídeo da turma. |
Desenvolvimento de Competências Gerais
Além das
habilidades específicas, o projeto foi concebido para desenvolver de forma
integrada diversas Competências Gerais da BNCC:
- 1. Conhecimento: Ao valorizar e utilizar
conhecimentos historicamente construídos sobre o protagonismo negro no
Brasil.
- 3. Repertório Cultural: Ao fruir e participar de
práticas artísticas e culturais afro-brasileiras (música).
- 4. Comunicação: Ao utilizar diferentes
linguagens (verbal, corporal, sonora) para expressar ideias e sentimentos.
- 6. Trabalho e Projeto de
Vida: Ao
refletir sobre a luta por justiça e cidadania como um valor para a vida
pessoal e coletiva.
- 8. Autoconhecimento e
Autocuidado: Ao
reconhecer e valorizar a própria identidade cultural e a de seus colegas.
- 9. Empatia e Cooperação: Ao exercitar o diálogo e a
colaboração em atividades coletivas, como a performance musical e a
criação de textos.
Este
sólido alinhamento curricular se materializa em atividades práticas e
engajadoras, que transformam a teoria em ação.
6.0 Atividades Sugeridas e Potencial de Desdobramento
As
atividades propostas são o momento de aplicação prática de toda a estrutura
pedagógica, priorizando metodologias ativas que colocam o estudante como
protagonista do seu aprendizado e estimulam a produção autoral.
As
seguintes atividades podem ser desenvolvidas em sequência ou de forma modular:
- Análise de Linguagem: Após a escuta e leitura da
música "República do Povo", os alunos, em grupos, serão
convidados a identificar e destacar as figuras de linguagem presentes em
cada verso (metáforas, antíteses, etc.), discutindo o efeito de sentido
que elas produzem.
- Produção Textual: Utilizando o refrão da
música como inspiração, os estudantes criarão seus próprios panfletos ou
slogans políticos, abordando uma causa social que considerem relevante
hoje. Esta atividade conecta diretamente o contexto histórico da
Conjuração com os desafios do presente e atende à habilidade EF69LP33.
- Performance e Expressão
Corporal: Em
roda, a turma irá recitar ou cantar a música, explorando a percussão
corporal para marcar o ritmo do samba-funk. A dinâmica promove a
cooperação, a desinibição e a vivência coletiva da dimensão rítmica da
canção.
- Construção de Vocabulário: Os alunos elaborarão
coletivamente um glossário histórico com os termos-chave que aparecem na
música e no contexto da Conjuração, como: panfleto, cadafalso,
república e mártir, consolidando a compreensão de conceitos
fundamentais.
Potencial de Desdobramento
Este
projeto possui um vasto potencial de desdobramento, permitindo que o trabalho
se aprofunde e ganhe novos formatos. Com base na habilidade EF69AR17 ("Explorar meios de circulação musical"),
as atividades podem culminar na criação de produtos autorais que ampliem o
alcance da aprendizagem para além dos muros da sala de aula, como:
- A organização de um sarau
para a comunidade escolar;
- A produção de um podcast
sobre a história da Conjuração Baiana;
- A gravação de um vídeo
musical com a performance da turma.
Ao
concretizar o aprendizado em produtos autorais, essas atividades sintetizam o
valor prático do projeto e preparam o terreno para a conclusão sobre seu
impacto duradouro na formação cidadã dos estudantes.
7.0 Conclusão
O projeto
"João de Deus e a República do Povo" representa uma
oportunidade valiosa de renovar o ensino de História do Brasil, oferecendo uma
abordagem que é, ao mesmo tempo, academicamente rigorosa e pedagogicamente
inovadora. Ele se sustenta sobre três pilares fundamentais que garantem sua
relevância e eficácia.
Recapitulando,
a proposta se destaca por:
- A relevância histórica e
social, ao resgatar a Conjuração Baiana e o protagonismo de homens
negros na luta por um Brasil mais justo, democrático e igualitário.
- A inovação metodológica,
ao utilizar a música como uma poderosa ferramenta de engajamento, capaz de
conectar o conteúdo curricular ao universo cultural dos estudantes de
forma sensível e crítica.
- O sólido alinhamento
curricular, que assegura o desenvolvimento de habilidades e
competências essenciais previstas na BNCC, integrando diferentes áreas do
conhecimento.
Ao adotar esta proposta, a escola não estará apenas ensinando um capítulo da história do Brasil; estará oferecendo aos seus alunos ferramentas para se tornarem cidadãos mais críticos, conscientes da diversidade que forma nossa nação e engajados com os desafios de construir, hoje e no futuro, a "República do Povo" sonhada por João de Deus.