Notas Didáticas João de Deus

 



João de Deus

“República do Povo”  

– Análise (Verso a Verso)

 

**Verso 1 – “No Recôncavo, coragem (ô!) / Na taberna, rebelião (ô!)”**
- Localiza a Conjuração Baiana no Recôncavo e nas tabernas/oficinas, espaços populares de articulação.
 
**“João de Deus, o alfaiate / Costurava libertação”**
- O ofício de alfaiate simboliza articulação de redes e ideias libertárias. É metáfora e realidade histórica.

**“Liberdade pro povo / Foi o grito que ecoou”**
- Referência aos panfletos que pregavam abolição e república.

**Refrão – “República do povo — Bahia vai se erguer!”**
- Centralidade da ideia republicana e igualitária.

**Verso 2 – “No papel, rebelião (ô!) / O panfleto convocava”**
- Alusão direta aos panfletos colados nos muros de Salvador convocando à revolta.

**“Mesmo no cadafalso / Sua voz não se calou”**
- Execução dos quatro mártires (1799, Praça da Piedade).

**Ponte – “Ecoa na Piedade / O lamento popular”**
- Memória do martírio coletivo, conceito de memória histórica.

**Refrão final – “A memória dos mártires — é luz a nos guiar”**
- Sacrifício transformado em símbolo de cidadania e resistência.

**Recursos estilísticos identificados**
- Metáforas: “costurava libertação” (alfaiate como símbolo da luta).
- Topônimos: Recôncavo, Piedade → lugares como símbolos históricos.
- Interjeições (ô!): oralidade popular e ritmo afro-baiano.
- Refrão repetitivo: efeito de slogan político e memorização coletiva.
- Antítese: “lamento” × “chama que não apaga” → dor convertida em esperança.

**Atividades sugeridas**
- Destacar figuras de linguagem em cada verso.
- Reescrever refrões como panfletos políticos atuais.
- Recitar/cantar em roda com percussão corporal.
- Elaborar glossário histórico: panfleto, cadafalso, república, mártir.

 

Notas Didáticas e BNCC

 

**História**
- EF08HI05: Explicar movimentos e rebeliões na América portuguesa (Conjuração Baiana), relacionando com ideais iluministas.

**Língua Portuguesa**
- EF69LP48: Interpretar efeitos de recursos expressivos (rimas, figuras) em canções.
- EF69LP33: Produzir textos autorais de intervenção social (panfletos, slogans).

**Arte – Música**
- EF69AR19: Identificar estilos musicais (samba-funk, samba-reggae) em seus contextos culturais.
- EF69AR17: Explorar meios de circulação musical (da canção ao sarau/podcast).

**Competências Gerais**
1. Conhecimento; 3. Repertório cultural; 4. Comunicação; 6. Trabalho e projeto de vida;
8. Autoconhecimento e autocuidado; 9. Empatia e cooperação.

**Objetivos **
- História: compreender a letra como documento histórico e político.
- Português: analisar recursos poéticos e produzir novos textos de intervenção.
- Arte: experimentar ritmo afro-baiano em atividades coletivas.

Guia de Estudos: João de Deus e a Conjuração Baiana

Este guia foi elaborado para aprofundar e avaliar a compreensão sobre a vida de João de Deus do Nascimento, o contexto e os desdobramentos da Conjuração Baiana de 1798, e a análise da música "República do Povo". Utilize as seções a seguir para testar seus conhecimentos e explorar os temas em maior detalhe.

Questionário de Respostas Curtas

Responda às seguintes perguntas em 2 ou 3 frases, utilizando exclusivamente as informações fornecidas nos textos de referência.

  1. Quem foi João de Deus do Nascimento e qual era sua formação e profissão?
  2. Quais foram as principais inspirações ideológicas e os objetivos centrais da Conjuração Baiana de 1798?
  3. Descreva o caráter popular da Conjuração Baiana e os grupos sociais que participaram do movimento.
  4. Como João de Deus utilizou sua alfabetização e sua profissão para promover os ideais do movimento?
  5. Qual foi o desfecho da Conjuração Baiana para seus quatro principais líderes após a denúncia do movimento?
  6. Além de João de Deus, quem foram os outros três líderes condenados à morte e executados em 1799?
  7. Na música "República do Povo", qual o significado da metáfora "Costurava libertação"?
  8. Qual evento histórico ocorreu na Praça da Piedade e qual o seu significado simbólico nos dias de hoje?
  9. Cite três das propostas consideradas radicais da conspiração para a sociedade da época.
  10. De acordo com o texto, como a memória de João de Deus e dos outros mártires é interpretada atualmente?

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Gabarito do Questionário

  1. João de Deus do Nascimento foi um dos líderes da Conjuração Baiana, nascido em Cachoeira (Recôncavo Baiano) e filho de africanos libertos. Ele tinha uma formação incomum para a época, sabendo ler e escrever em árabe e português, e trabalhava como alfaiate, uma profissão que lhe permitia articular ideias e consolidar sua liderança.
  2. A Conjuração Baiana foi inspirada pela Revolução Francesa e por ideais republicanos. Seus objetivos centrais eram derrubar o domínio português na Bahia, proclamar uma república popular, abolir a escravidão e instituir a igualdade entre brancos e negros.
  3. O movimento teve um forte caráter popular e democrático, com participação ativa de alfaiates, soldados, pequenos comerciantes, libertos e escravizados. Essa base social o diferenciou de outras revoltas coloniais, que eram geralmente restritas às elites.
  4. João de Deus usou sua profissão de alfaiate como um espaço para a circulação de ideias políticas e discussões. Além disso, sua alfabetização permitiu que ele atuasse na propaganda clandestina, sendo um dos responsáveis por copiar e distribuir os panfletos manuscritos que convocavam o povo à revolução.
  5. Após a denúncia do movimento em agosto de 1798, os quatro principais líderes, incluindo João de Deus, foram presos, julgados e condenados à morte por enforcamento. A execução ocorreu em 8 de novembro de 1799, e seus corpos foram esquartejados e expostos para intimidar a população.
  6. Os outros três líderes condenados à morte e executados junto com João de Deus foram Lucas Dantas, Luiz Gonzaga das Virgens e Manuel Faustino.
  7. A metáfora "Costurava libertação" simboliza como João de Deus utilizava seu ofício de alfaiate não apenas para seu sustento, mas como uma ferramenta para articular redes de pessoas e tecer as ideias libertárias da conspiração, unindo diferentes grupos em torno do objetivo da revolução.
  8. Na Praça da Piedade, em Salvador, ocorreu a execução dos quatro mártires da Conjuração Baiana em 1799. Hoje, o local abriga um monumento em homenagem a eles, simbolizando a memória do martírio e o legado de resistência e luta pela liberdade.
  9. As propostas radicais da conspiração incluíam a abolição da escravidão, a instituição da igualdade racial entre brancos e negros, e a garantia de salários justos para os soldados.
  10. Atualmente, João de Deus e seus companheiros são lembrados como mártires da liberdade e precursores da independência do Brasil. Suas memórias se transformaram em um símbolo de resistência, coragem popular e da luta contra a escravidão, inspirando novas gerações.

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Questões para Dissertação

Reflita sobre os temas abaixo e prepare argumentos para uma resposta em formato de dissertação, utilizando o contexto fornecido como base.

  1. Discuta como a profissão de alfaiate e os espaços de trabalho, como as oficinas e tabernas, contribuíram para a articulação política e a disseminação de ideias na Conjuração Baiana.
  2. Analise o caráter popular e democrático da Conjuração Baiana, explicando por que ela é considerada um dos primeiros movimentos com essas características na história do Brasil.
  3. Explique a importância dos panfletos como ferramenta de propaganda clandestina para os conspiradores e como a alfabetização de líderes como João de Deus foi fundamental nesse processo.
  4. Descreva a punição imposta aos líderes da Conjuração e discuta como, apesar da intenção de intimidação por parte da Coroa portuguesa, o evento transformou os mártires em símbolos de resistência.
  5. Utilizando a análise da música "República do Povo", demonstre como recursos estilísticos (metáforas, toponímias, refrão) são empregados para narrar a história da Conjuração Baiana e construir a memória de seus heróis.

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Glossário de Termos-Chave

Termo

Definição

Cadafalso

Estrutura elevada, geralmente de madeira, onde ocorriam execuções públicas, como o enforcamento dos líderes da Conjuração Baiana na Praça da Piedade.

Conjuração Baiana

Movimento revolucionário de caráter popular ocorrido em 1798 na Bahia, que buscava a independência de Portugal, a proclamação de uma república, a abolição da escravidão e a igualdade racial. Também conhecida como Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios.

Coroa Portuguesa

Refere-se ao governo do Império Português, a autoridade colonial que dominava o Brasil na época e contra a qual a Conjuração Baiana se rebelou.

Libertos

Pessoas que nasceram escravizadas e conseguiram sua liberdade, ou filhos de africanos que já nasceram livres. João de Deus era filho de africanos libertos.

Mártir

Alguém que morre ou sofre grandemente em defesa de uma causa ou ideal. João de Deus e seus companheiros são considerados mártires da liberdade por terem sido executados por lutarem por seus ideais revolucionários.

Panfleto

Texto curto, geralmente manuscrito na época, usado para divulgar ideias de forma rápida e clandestina. Na Conjuração Baiana, os panfletos foram colados em locais públicos de Salvador para convocar a população à revolta.

Recôncavo Baiano

Região geográfica e cultural no entorno da Baía de Todos-os-Santos, na Bahia, marcada historicamente pela economia do açúcar e tabaco, pelo trabalho escravo e por uma forte presença da cultura afro-brasileira.

República

Forma de governo na qual o chefe de Estado é eleito pelo povo ou por seus representantes. Era o modelo político defendido pelos conjurados, em oposição à monarquia portuguesa.

 

 

 

Proposta de Projeto Pedagógico Multidisciplinar: João de Deus e a República do Povo

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1.0 Apresentação e Justificativa

Este projeto pedagógico nasce da necessidade estratégica de resgatar e valorizar, no currículo escolar, figuras históricas populares que representam a luta do povo brasileiro por justiça e liberdade. Ao centrar a narrativa em João de Deus do Nascimento e na Conjuração Baiana, preenchemos uma lacuna fundamental no ensino de História, deslocando o foco para um movimento de base popular, de profundo protagonismo negro e com um projeto de nação radicalmente inclusivo.

A relevância desta iniciativa é inquestionável. A Conjuração Baiana de 1798, liderada por homens como João de Deus, um alfaiate negro, filho de africanos libertos e notavelmente alfabetizado em árabe e português, propunha ideias precursoras e revolucionárias para o Brasil colonial: a abolição imediata da escravidão, a proclamação de uma república popular e a instituição da igualdade racial. Estudar este movimento não é apenas revisitar um fato histórico, mas compreender as raízes das lutas sociais que moldam o Brasil contemporâneo e reconhecer a agência política de grupos historicamente subalternizados.

Para tornar este conteúdo denso e complexo mais acessível e significativo para os estudantes do século XXI, o projeto adota uma abordagem inovadora: a utilização da música "República do Povo", uma composição original da AfroEduca, como fio condutor do processo de aprendizagem. Esta metodologia não só engaja os alunos através de uma linguagem artística com a qual se identificam, mas também se alinha diretamente às competências de repertório cultural e comunicação preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), transformando a sala de aula em um espaço de análise crítica e expressão criativa.

A seguir, apresentamos o contexto histórico que fundamenta esta proposta, detalhando a trajetória de João de Deus e o movimento que ele ajudou a liderar.

2.0 Contextualização Histórica: A Luta por um Brasil mais Justo

Para avaliar a magnitude e a coragem dos envolvidos na Conjuração Baiana, é imprescindível compreender o cenário social, político e econômico da Bahia no final do século XVIII. Era um território de profundas contradições, onde a opulência da elite colonial contrastava brutalmente com a opressão da vasta maioria da população.

A Conjuração Baiana (1798): Uma Revolução Popular

Salvador e seu Recôncavo viviam um paradoxo: enquanto a economia baseada no trabalho escravo gerava imensa riqueza para a elite branca, a população majoritariamente negra — composta por escravizados, libertos e seus descendentes — enfrentava a miséria e sonhava com a liberdade. Foi neste ambiente de efervescência e tensão que floresceu a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios.

Inspirado diretamente pela Revolução Francesa (1789) e seus ideais republicanos, o movimento articulado por João de Deus, Lucas Dantas, Luiz Gonzaga das Virgens e Manuel Faustino era ousado e possuía objetivos claros e radicais para a época:

  • Abolir a escravidão;
  • Instituir a igualdade entre brancos e negros;
  • Garantir salários justos para os soldados;
  • Melhorar as condições de vida da população pobre.

Diferentemente de outras revoltas coloniais, muitas vezes restritas às elites, a Conjuração Baiana destacou-se por seu caráter popular e democrático. Contou com a participação ativa de alfaiates, soldados, pequenos comerciantes, libertos e escravizados, tornando-se um dos primeiros movimentos verdadeiramente democráticos da história do Brasil.

João de Deus do Nascimento: O Articulador da Liberdade

Nascido em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, João de Deus era filho de africanos libertos e cresceu em um ambiente de forte identidade cultural negra, com influências islâmicas dos povos nagôs e haussás. Sua formação era incomum para um homem negro da época: era alfabetizado em árabe e português, o que lhe conferia uma capacidade única de transitar entre diferentes grupos.

Sua profissão de alfaiate era mais do que um meio de sustento; as oficinas eram centros de circulação de notícias e debate político, onde a semente da revolta era cultivada. João de Deus consolidou-se como uma referência moral e espiritual, utilizando sua casa para reuniões discretas e sua liderança para inspirar confiança. Ele desempenhou um papel fundamental na conspiração, sendo responsável por:

  • Mobilizar pessoas comuns em torno do ideal de transformação social.
  • Articular a propaganda clandestina, copiando e distribuindo os panfletos manuscritos que convocavam o povo à luta.
  • Colaborar com outros líderes, como Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, para organizar as ações.

Sua vida pessoal confundia-se com a causa da liberdade, transformando-o em um símbolo de dignidade e resistência para a comunidade negra e, consequentemente, em um "homem perigoso" para as autoridades coloniais.

O legado de coragem de João de Deus e dos mártires da Conjuração Baiana inspira os objetivos educacionais que este projeto busca alcançar, conectando o passado de luta à formação cidadã do presente.

3.0 Objetivos Pedagógicos

Os objetivos deste projeto foram cuidadosamente desenhados para transcender a simples memorização de fatos históricos. Visamos promover o desenvolvimento do pensamento crítico, da empatia e da consciência cidadã, capacitando os estudantes a analisar o passado para compreender e transformar o presente.

Os objetivos pedagógicos centrais, articulados de forma multidisciplinar, são:

  • Em História: Analisar a letra da música "República do Povo" como um documento histórico e político, permitindo aos alunos compreender as causas, os atores sociais e os ideais da Conjuração Baiana de 1798.
  • Em Língua Portuguesa: Interpretar os recursos poéticos e estilísticos presentes na canção, como metáforas e slogans, e capacitar os alunos a produzir textos autorais de intervenção social, como panfletos e manifestos que dialoguem com questões contemporâneas.
  • Em Arte: Explorar e experimentar o ritmo afro-baiano que estrutura a música (samba-funk) por meio de atividades coletivas de percussão corporal e canto, reconhecendo a música como uma poderosa forma de expressão cultural e registro histórico.

Para atingir esses objetivos de forma integrada e dinâmica, propomos uma metodologia que posiciona a música como a ferramenta central de todo o processo de aprendizagem.

4.0 Abordagem Metodológica: A Música como Documento e Ferramenta de Engajamento

Acreditamos que a música é uma ferramenta pedagógica de imenso poder, capaz de conectar o conteúdo histórico à sensibilidade, à memória afetiva e ao universo cultural dos estudantes. Ela traduz conceitos complexos em linguagem poética e rítmica, facilitando a apreensão e a reflexão crítica.

O eixo central desta metodologia é a canção "República do Povo", criada pela AfroEduca especificamente como um recurso didático para abordar a Conjuração Baiana. A música funciona simultaneamente como fonte histórica, objeto de análise literária e inspiração para a produção artística.

Análise Pedagógica da Letra

A letra da música foi estruturada para conter referências diretas a eventos, conceitos e personagens históricos, permitindo uma análise aprofundada em sala de aula.

Trecho da Música

Análise e Significado Histórico

"No Recôncavo, coragem (ô!) / Na taberna, rebelião (ô!)"

Localiza geograficamente a Conjuração e aponta as oficinas e tabernas como os espaços populares onde as ideias revolucionárias circulavam.

"João de Deus, o alfaiate / Costurava libertação"

Utiliza a metáfora do ofício de alfaiate para simbolizar a articulação de redes de pessoas e a construção de ideias libertárias.

"República do povo — Bahia vai se erguer!"

Representa a centralidade da ideia republicana e igualitária como o principal objetivo do movimento.

"No papel, rebelião (ô!) / O panfleto convocava"

Faz alusão direta à estratégia de propaganda do movimento: a produção e distribuição de panfletos manuscritos nos muros de Salvador.

"Mesmo no cadafalso / Sua voz não se calou"

Refere-se à execução dos quatro líderes na Praça da Piedade em 1799, ressaltando que o martírio não silenciou o ideal.

"Ecoa na Piedade / O lamento popular"

Evoca o conceito de memória histórica, transformando o local da execução em um espaço simbólico de resistência e luto coletivo.

"A memória dos mártires — é luz a nos guiar"

Conclui que o sacrifício dos líderes foi ressignificado, tornando-se um símbolo de cidadania e inspiração para lutas futuras.

Recursos Estilísticos e Potencial Didático

A canção utiliza diversos recursos que podem ser explorados pedagogicamente para aprofundar a compreensão do tema e desenvolver habilidades de linguagem:

  • Metáforas: A expressão "costurava libertação" é um ponto de partida ideal para discutir como a linguagem figurada pode carregar significados históricos e políticos profundos.
  • Topônimos: O uso de lugares como "Recôncavo" e "Piedade" permite trabalhar a geografia como parte da construção da memória histórica.
  • Interjeições: O "(ô!)" evoca a oralidade popular e o ritmo afro-baiano, abrindo espaço para discussões sobre cultura, identidade e musicalidade.
  • Refrão Repetitivo: Funciona como um slogan político, ideal para analisar a construção de mensagens de impacto e para atividades de memorização coletiva e engajamento.
  • Antítese: O contraste entre o "lamento" da execução e a "chama que não apaga" da esperança pode ser usado para discutir como a dor pode ser convertida em força política.

Essa abordagem metodológica encontra sólido respaldo nas diretrizes curriculares nacionais, garantindo que a inovação caminhe lado a lado com os objetivos de aprendizagem formais.

5.0 Estrutura Multidisciplinar e Alinhamento à BNCC

A força deste projeto reside em sua natureza multidisciplinar, que integra os componentes de História, Língua Portuguesa e Arte. Essa abordagem promove uma visão mais holística do conhecimento, permitindo que os alunos compreendam como diferentes linguagens e saberes se conectam para construir a memória e a identidade de um povo.

O projeto está totalmente alinhado às habilidades e competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como detalhado abaixo.

Componente Curricular

Habilidades da BNCC

Aplicação no Projeto

História

EF08HI05

Relacionando a Conjuração Baiana aos ideais iluministas e à Revolução Francesa, como explicitado no contexto histórico da proposta.

Língua Portuguesa

EF69LP48

Interpretando os efeitos de sentido de recursos expressivos (metáforas, rimas, refrão) na letra da canção "República do Povo".

Língua Portuguesa

EF69LP33

Produzindo textos de intervenção social, como a reescrita dos refrões em formato de panfletos que dialoguem com questões atuais.

Arte (Música)

EF69AR19

Identificando e contextualizando o estilo musical da canção (samba-funk), explorando suas raízes na cultura afro-baiana.

Arte (Música)

EF69AR17

Explorando diferentes meios de circulação musical ao transformar o aprendizado em um produto final, como um sarau, podcast ou vídeo da turma.

Desenvolvimento de Competências Gerais

Além das habilidades específicas, o projeto foi concebido para desenvolver de forma integrada diversas Competências Gerais da BNCC:

  • 1. Conhecimento: Ao valorizar e utilizar conhecimentos historicamente construídos sobre o protagonismo negro no Brasil.
  • 3. Repertório Cultural: Ao fruir e participar de práticas artísticas e culturais afro-brasileiras (música).
  • 4. Comunicação: Ao utilizar diferentes linguagens (verbal, corporal, sonora) para expressar ideias e sentimentos.
  • 6. Trabalho e Projeto de Vida: Ao refletir sobre a luta por justiça e cidadania como um valor para a vida pessoal e coletiva.
  • 8. Autoconhecimento e Autocuidado: Ao reconhecer e valorizar a própria identidade cultural e a de seus colegas.
  • 9. Empatia e Cooperação: Ao exercitar o diálogo e a colaboração em atividades coletivas, como a performance musical e a criação de textos.

Este sólido alinhamento curricular se materializa em atividades práticas e engajadoras, que transformam a teoria em ação.

6.0 Atividades Sugeridas e Potencial de Desdobramento

As atividades propostas são o momento de aplicação prática de toda a estrutura pedagógica, priorizando metodologias ativas que colocam o estudante como protagonista do seu aprendizado e estimulam a produção autoral.

As seguintes atividades podem ser desenvolvidas em sequência ou de forma modular:

  1. Análise de Linguagem: Após a escuta e leitura da música "República do Povo", os alunos, em grupos, serão convidados a identificar e destacar as figuras de linguagem presentes em cada verso (metáforas, antíteses, etc.), discutindo o efeito de sentido que elas produzem.
  2. Produção Textual: Utilizando o refrão da música como inspiração, os estudantes criarão seus próprios panfletos ou slogans políticos, abordando uma causa social que considerem relevante hoje. Esta atividade conecta diretamente o contexto histórico da Conjuração com os desafios do presente e atende à habilidade EF69LP33.
  3. Performance e Expressão Corporal: Em roda, a turma irá recitar ou cantar a música, explorando a percussão corporal para marcar o ritmo do samba-funk. A dinâmica promove a cooperação, a desinibição e a vivência coletiva da dimensão rítmica da canção.
  4. Construção de Vocabulário: Os alunos elaborarão coletivamente um glossário histórico com os termos-chave que aparecem na música e no contexto da Conjuração, como: panfleto, cadafalso, república e mártir, consolidando a compreensão de conceitos fundamentais.

Potencial de Desdobramento

Este projeto possui um vasto potencial de desdobramento, permitindo que o trabalho se aprofunde e ganhe novos formatos. Com base na habilidade EF69AR17 ("Explorar meios de circulação musical"), as atividades podem culminar na criação de produtos autorais que ampliem o alcance da aprendizagem para além dos muros da sala de aula, como:

  • A organização de um sarau para a comunidade escolar;
  • A produção de um podcast sobre a história da Conjuração Baiana;
  • A gravação de um vídeo musical com a performance da turma.

Ao concretizar o aprendizado em produtos autorais, essas atividades sintetizam o valor prático do projeto e preparam o terreno para a conclusão sobre seu impacto duradouro na formação cidadã dos estudantes.

7.0 Conclusão

O projeto "João de Deus e a República do Povo" representa uma oportunidade valiosa de renovar o ensino de História do Brasil, oferecendo uma abordagem que é, ao mesmo tempo, academicamente rigorosa e pedagogicamente inovadora. Ele se sustenta sobre três pilares fundamentais que garantem sua relevância e eficácia.

Recapitulando, a proposta se destaca por:

  • A relevância histórica e social, ao resgatar a Conjuração Baiana e o protagonismo de homens negros na luta por um Brasil mais justo, democrático e igualitário.
  • A inovação metodológica, ao utilizar a música como uma poderosa ferramenta de engajamento, capaz de conectar o conteúdo curricular ao universo cultural dos estudantes de forma sensível e crítica.
  • O sólido alinhamento curricular, que assegura o desenvolvimento de habilidades e competências essenciais previstas na BNCC, integrando diferentes áreas do conhecimento.

Ao adotar esta proposta, a escola não estará apenas ensinando um capítulo da história do Brasil; estará oferecendo aos seus alunos ferramentas para se tornarem cidadãos mais críticos, conscientes da diversidade que forma nossa nação e engajados com os desafios de construir, hoje e no futuro, a "República do Povo" sonhada por João de Deus.