Machado de Assis
📘 Biografia – Machado de Assis
Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em um lar modesto. Filho de Francisco José de Assis, um pintor de paredes mulato, e Maria Leopoldina Machado, uma lavadeira de origem açoriana, Machado cresceu em um ambiente simples, mas profundamente marcado por afetos, perdas e um senso precoce de observação da vida.
Ficou órfão de mãe ainda criança, e seu pai faleceu quando ele era adolescente. Foi criado pela madrasta, Maria Inês, uma mulher negra alforriada que o educou com severidade e amor. A pobreza foi companheira constante em sua juventude, mas isso nunca impediu seu olhar atento ao mundo. Portador de epilepsia, tímido e gago, Machado desenvolveu desde cedo um refúgio no silêncio e nos livros.
Autodidata, aprendeu francês com um padeiro, latim com um padre e literatura lendo tudo o que conseguia encontrar — dos clássicos gregos aos românticos franceses. Trabalhou como tipógrafo, revisor e jornalista. A convivência com o mundo das letras e das ideias, mesmo à margem da elite intelectual, permitiu que aos poucos ele se tornasse uma das vozes mais lúcidas e afiadas do Brasil do século XIX.
Casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, uma portuguesa culta e sua grande companheira por mais de 30 anos. Com ela, encontrou equilíbrio emocional e estímulo intelectual. Nunca tiveram filhos, mas formaram um dos casais mais discretos e cúmplices da literatura brasileira.
Machado foi um homem negro em um Brasil escravocrata. Embora raramente tenha abordado a questão racial de forma direta em sua obra, sua trajetória e seus silêncios dizem tanto quanto suas palavras. Em um país que negava humanidade a pessoas negras, ele se tornou fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, símbolo máximo de prestígio intelectual — uma ironia que ele certamente perceberia com seu humor ácido.
Seu olhar sempre foi sutil e demolidor. Escrevia com elegância, mas desnudava a hipocrisia das elites, o racismo velado, a moral burguesa e a falsidade da cordialidade brasileira. Morreu em 29 de setembro de 1908, já reconhecido como um dos maiores escritores do país. Deixou um legado que atravessa gerações e segue mais atual do que nunca.
Machado de Assis é, antes de tudo, um espelho invertido do Brasil: um homem negro, pobre e doente, que se tornou a maior voz literária da nação. Sua vida é um convite à resistência silenciosa, à inteligência afiada e à construção de saberes desde as margens.